Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Euro, um futuro ainda incerto

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Ideias

2018-02-16 às 06h00

António Ferraz

Com o fim da IIª Grande Guerra os Estados Unidos impuseram através dos “Acordos de Bretton-Woods”, o dólar norte-americano como divisa mundial de referência nas trocas comerciais e na constituição das reservas nacionais.
Assim, o dólar norte-americano seria considerado a única alternativa ao ouro embora não fosse totalmente assegurado por este metal precioso. Porém, décadas depois com a crise do Sistema de Câmbios Fixos mas Ajustáveis (Bretton-Woods”), a Europa avançou para a construção da sua própria União Económica e Monetária (UEM), passando o dólar norte-americano a ter uma moeda internacional alternativa no euro. Após um processo longo e complexo de construção da UEM, em particular, de convergência nominal (preços, juros, défices orçamentais, dívidas públicas e estabilidade cambial) entre os países pretendes à adesão da moeda única. Após uma fase de moeda bancária (1999), deu-se a efectiva circulação de notas e moedas do euro a partir de 2002. No presente, são 19 os países europeus que fazem parte da zona euro. Entre as vantagens da moeda única (euro), destacam-se a simplificação e regularização das relações comerciais dentro da zona euro e o nivelamento devido a existência de um euro forte de vários problemas característicos para todos os países da UEM.
Contudo, paradoxalmente, este último aspecto é mesmo aquele que tem vindo a ser uma das maiores fragilidades do euro: os países menos desenvolvidos e com mais baixos níveis de produtividade têm revelado dificuldades adicionais, mormente em dois aspectos:
(a) no crescimento económico por perda de competitividade externa, por exemplo, no caso português que com o euro passou a apresentar taxas de crescimento real de produção (PIB) muito fracas. Como dizem os economistas “moeda forte e economia fraca não é sustentável”;
(b) nas recessões económicas que apresentam-se mais persistentes e graves do que nos países mais desenvolvidos, com elevados níveis de endividamento privado e público e consequente imposição de programas de ajustamento financeiro excessivos, como se verificou com a crise económica e financeira global (2008) e acentuada com a “crise das dívidas soberanas” (2010).
Sendo assim, a realidade tem mostrado que o euro fez aumentar a clivagem entre os países mais ricos e os países mais pobres da zona euro e, daí a assimetria verificada entre os países da moeda única quanto aos efeitos económicos negativos resultantes de “choques agregados nominais”.
Ora, depois de um longo período de crise económica e financeira global, finalmente a zona euro tem mostrado sinais de recuperação económica, mas tal significa que o euro passou a ser uma moeda consolidada no futuro ou nem por isso?
Sobre isso, podemos dizer que um recente relatório comunitário com propostas de “reforma do euro” deixa-nos muitas dúvidas sobre a consolidação futura do euro, ao invés, visualizamos dificuldades acrescidas no funcionamento estável das economias da zona euro (em detrimento sobretudo dos países menos desenvolvidos da Europa do Sul). Entre as medidas propostas (com o entusiástico apoio da Alemanha!), destacamos duas:
(1) prioridade ao aprofundamento da União Bancária Europeia, o que implicará em maior concentração bancária à custa dos pequenos e médios bancos nacionais;
(2) transformação do Mecanismo de Estabilidade Europeu num Fundo Monetário Europeu com regras que serão naturalmente ainda mais apertadas do que agora na concessão de empréstimos aos países em situação de dificuldade económica, financeira ou de dívida pública (o que toca em particular os países mais frágeis da Europa do Sul, como Portugal). Pelo contrário, nada está claro quanto a revisão do actual Tratado Orçamental profundamente limitador do papel regulador do Estado e do crescimento económico sustentável.
Concluindo, muito provavelmente serão aprovadas as medidas apontadas e a respectiva “reforma do euro” que atendem sobretudo aos interesses dos países mais poderosos do euro, com a Alemanha à cabeça. Ora, a implementação daquelas medidas implicaria, como vimos, maior concentração bancária (monopolização) e restrição ao financiamento das economias mais débeis.
Por sua vez, a elaboração da estratégia orçamental dos países-membros do euro passariam a ser feitos de forma discricionária pela tecnocracia europeia. Sendo assim, parece-nos não ser positivas as medidas (e a “reforma do euro”) propostas no referido relatório comunitário. Enfim, se tal acontecer, certamente que passaremos a estar (ainda mais do que até aqui) com uma zona euro funcionando como um autêntico clube de credores e, pior do que isso, será expectável num futuro mais ou menos próximo à implosão da zona euro.

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