Correio do Minho

Braga,

Euro mais fraco, bom para a Europa (e Portugal)?

Serviços de pagamento: mudaram as regras

Ideias

2017-02-04 às 06h00

António Ferraz

Com a construção da União Monetária Europeia (UME) surgiu em 1999 a moeda única europeia, o euro, que passou a ser a moeda comum nos países da Zona Euro e que portanto tinham cumprido os chamados critérios de convergência nominal, entre os quais Portugal. Para os seus mentores o euro deveria ser uma moeda forte e estável: (1) forte, no sentido de que fosse uma moeda desejável e credível nas trocas comerciais e na constituição de reservas soberanas mundiais, que tornasse as importações de bens e serviços dos países da Zona Euro relativamente mais baratas dado cambiar-se menos euros por cada unidade de moeda estrangeira, que levasse ao cumprimento da meta prioritária da zona Euro, a “estabilidade dos preços” significando com isso que a taxa de inflação média da zona Euro estivesse abaixo mas próxima de 2%; (2) estável, na medida em quem fosse uma moeda que não tivesse grandes e indesejadas flutuações cambiais e assim que não fosse potencialmente geradora de desequilíbrios macroeconómicos (inflação, desemprego, défice externo, etc.). Observe-se que nessa linha de pensamento, o BCE definiu inicialmente o câmbio oficial do euro face ao dólar EUA em 1 Euro = 1,17 dólares.
Porém, vigorando o regime de câmbios flexíveis a nível internacional era natural que o valor do euro fosse variando em função do surgimento de ciclos económicos e de especulação financeira num mundo globalizado e desregulado. É assim que o valor do euro face ao dólar atingiu no passado e por duas vezes a paridade (1 euro = 1 dólar). Da primeira vez, no sentido da desvalorização da moeda única europeia que chegou mesmo a enfraquecer muito face ao dólar e estar cotada abaixo da paridade (com um valor mínimo de 1 euro igual a 0,85 dólares em 2002). Da segunda vez, pelo contrário, no sentido da recuperação/valorização do euro face o dólar o que aconteceu até ao aparecimento da crise financeira global de 2008, tendo mesmo o euro atingindo um pico de valorização cambial, 1 euro = 1,604 dólares). Mais recentemente, em 2016, o euro embora mantendo valores superiores ao da paridade tem vindo, porém, a desvalorizar-se tendo atingido muito recentemente mínimos históricos (1 Euro = 1,055 dólares em Dezembro de 2016). Face a essa tendência de um euro mais fraco são muitos os analistas que apontam para que por uma terceira vez seja a paridade euro/dólar seja atingida em 2017 (alguns prevêem mesmo que o euro passe a ter um valor abaixo do dólar). Vamos de seguida levantar duas questões:
(1) O que explica a tendência actual para um euro mais fraco?
Essencialmente uma maior procura nos mercados cambiais mundiais por dólares, devido: a subida da taxa de juro do Banco Central dos EUA (FED) com efeito da progressiva retirada dos estímulos monetários expansionistas do FED, acção justificada pelo maior dinamismo da economia e pela redução acentuada do desemprego da economia americanada, sendo assim, o FED tem vindo a intervir nos mercados monetários interbancários restringindo o aumento de liquidez e de procura interna para evitar uma eventual subida indesejada da inflação, a manutenção da política expansionista não convencional, os chamados alívios monetários, ou seja, massivas compras de títulos da dívida pública e privada dos países com mais dificuldade da Zona Euro (caso de Portugal), a permanência da taxa de juro de referência do BCE ainda próxima do zero percentual. Mais um factor a reter explicativo de um euro mais fraco é de natureza política e deriva do ainda mais elevado grau de incerteza gerado pela recente eleição presidencial americana de D. Trump. Este tem vindo a afirmar a pretensão, por um lado, de estimular a economia americana via aumento dos gastos públicos, sobretudo do investimento em infra-estruturas e, por outro, de aumentar o proteccionismo comercial e os controlos da imigração. Se assim for, é expectável o aparecimento mais cedo ou mais tarde de novas tensões inflacionistas nos EUA, o que obrigará o FED a intervir secando liquidez e fazendo subir a sua taxa de juro de referência. A tudo isto junte-se o que se passa na Europa com o processo do “Brexit” e o risco de subida do populismo de extrema-direita, o que só afectará negativamente a UME e a moeda única.
(2) Poderá a desvalorização do euro beneficiar a Europa (e Portugal)?
Os efeitos imediatos de um euro mais fraco podem ser benéficos para a Europa (e Portugal), pelo menos a curto prazo: um investidor ou cliente de fora do Euro ganha vantagem ao fazer compras na Europa pois necessitará de um valor menor da sua própria moeda por cada e assim os produtos europeus serão mais baratos para o exterior o que melhorará as exportações e um aumento da produção e do emprego europeias, as importações de bens e serviços na Zona Euro tornar-se-ão mais caros (mais euros por cada dólar), de que resulta, por um lado, retracção das importações o que é benéfico para as contas externas europeias, mas também haverá mais inflação importada.
Ora, os benefícios referidos são fundamentalmente a curto prazo, porque a médio e longo prazo isso poderá não suceder por razões económicas e políticas: aumento do proteccionismo comercial, subida das taxas de juro, mais controlo da imigração, ascensão do populismo de extrema-direita com o possível desmoronar do Euro e mais terrorismo e conflitos bélicos mundiais. Tudo isso, não deixará certamente, caso aconteça, de gerar fortes impactos negativos sobre a economia e a sociedade à escala global.

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