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«Eu te entendo»

Vamos mesmo continuar a cometer os mesmos erros?

«Eu te entendo»

Escreve quem sabe

2020-05-27 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

Tenho os olhos, em fusco, no enorme Lima Duarte. Ouvi-lo, por estes dias, a invocar a memória do colega Flávio Migliaccio foi como passar a linha do comboio com o semáforo a vermelho. As palavras destilaram em fel. Fediam a ingratidão. O teatro de arena não é para velhos. São espantados como trapos, gastos pela erosão. O homem que eternizou Zeca Diabo, Sinhôzinho Malta ou Sassá Mutema é o mesmo que entende a forca da desilusão. Um entender com o hálito putrefacto de 1964 e com o bafio de 1968, anos onde o chicote da ditadura militar brasileira estalava.

É um testemunho que mata o sorriso de quem viveu o esplendor da telenovela do Brasil. Muitos já tombaram. Homens como Gianfrancesco Guarnieri, Chico de Assis, Jorge Dória, Raúl Cortez, José Wilker, entre tantos, deixaram uma pegada eterna no palco das luzes. Outros carregam hoje a cruz do desalento. Um povo onde a alegria deu lugar ao amargo. Nem mesmo Regina Duarte, filha de Lima Duarte e recente demissionária Secretária Especial de Cultura do governo de Bolsonaro, conseguiu estancar este fio de dor. No cargo que ocupou em magros dois meses, foram férteis os casos de insensatez. Um dos últimos aconteceu quando instigada pela bela Maitê Proença, a “Namoradinha do Brasil” deixou cair o pano. É mais uma viuvez nesta caricatura chamada Brasil. Um chilique que envergonha a classe e os milhões que a veneraram durante décadas.
Isto que hoje é fardo, foi liberdade. Gabriela, sem bater à porta, foi a mulher que todos queríamos tocar quando a pátria de Camões começava a gatinhar em liberdade. Um argumento a preto e branco de 1977, adquirido um ano antes por Carlos Cruz, então diretor de programas da RTP.

O corpo, o sorriso, a arte de seduzir, o jogo da palavra, o descalço dos pés, o cabelo ao vento, tudo era sede nos lábios de Sônia Braga. Portugal parava ao serão. Até os olhos verem cor, as letras do romance de Jorge Amado tiveram outras que fizeram nascer O Casarão, Escrava Isaura e O Astro. Noites onde a mente não queria cama.
A seguir ao Telejornal todos éramos desejo. Uma posse que nos sugava. Que alimentava a infância do Vitinho, a puberdade ao som do I Just Called To Say I Love You de Stevie Wonder e o rasgo do primeiro toque com Yes de Tim Moore. Pelo meio, havia que escanar o milho por entre o fumo da lareira, ver a bisca dos nove, trincar, aqui e acolá, uma filhó de sangue e, se a caneca parasse, beber um trago do vinho da Agrela. Era tempo sem cólera. Tinha o cru do amanso da terra. Íamos de casa em casa. Entrávamos sem bater à porta.

Com ou sem corredor, à medida que os passos ganhavam terreno havia sempre uma castanha assada, um chisno ao borralho e um jarro de vinho. As mãos calejadas pelo torgo da manhã, abriam-se em pétala. Em cima de um frigorífico ou de um corrimão de armários, estava a televisão que emitia a palavra portuguesa tricotada em sotaque. Era por aí que levantava a cabeça e via o silêncio da cozinha. Os rostos não mexiam. As pálpebras sustinham os diálogos. As personagens eram defendidas e veneradas. O ódio tinha um escárnio fugaz. Um tambor que zurzia o magote de gente que, antes da deita, ainda tinha o condão de separar as águas. As mulheres recolhiam com os rebentos. Os homens, sem luz, iam fazer a última torna do lameiro com o sacho às costas.

Era um tempo largo que deixava espreguiçar. Queríamos que o Brasil nos entrasse casa dentro. Uma terra irmã enamorada onde o virgem da palavra era acariciado com as canções de embalo. Este contraponto que hoje sentimos cava a doçura do tanto que colhemos. O nó que desabou Migliaccio não pode cair em vão nos aromas destapados em 1500. Há muito mais que vale. Há um jardim que não cheira mal com o abraço dos velhos. Nele, há a flor de Carlos Drummond de Andrade que fura «o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio». Um ressuscitar que colocou o homem brasileiro em cena. Sem amarras. Apenas, e só, com a alma do Brasil. Até lá, há ainda muito tempo para nos travarmos de amores com quem já partiu.

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