Correio do Minho

Braga, sábado

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Eu sou … Ayanti

A velha e a muda

Ideias

2015-01-19 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Enquanto a Europa se prepara para uma nova etapa de intoxicação em medidas anti-terrorismo, fingindo-se agora atordoada com uma Bélgica que, é sabido de há muito, se desvenda como um pequenino mas muito eficiente viveiro de fundamentalistas radicais (recordo que, dois dias antes do 11 de Setembro, um atentado protagonizado por dois pseudo-jornalistas de origem marroquina com passaporte Belga, resultaria a 14 de Setembro na declaração oficial da morte do Comandante Ahmed Shah Massoud, o então líder da Aliança do Norte sobre quem recaíam as esperanças do mundo livre para que travasse a Al-Qaeda que ameaçava já a capital Cabul, no Afeganistão);

Enquanto a Europa pensa agora em como guardar o seu exemplar do Charlie Hebdo, convicta de que, mais do que um jornal satírico cuja existência muitos desconheciam e outros muitos desprezavam, Charlie tornou-se num símbolo da luta pelo direito à liberdade expressão; mas também incerta sobre qual a fronteira entre liberdade - pilar fundamental de todo o seu edifício cultural - e escarnio, bullying cultural, dentro da multiculturalidade que é igualmente pilar fundamental da sua identidade;

Enquanto a Europa vive na expectativa do que acontecerá nas eleições legislativas gregas que ocorrem já a 25 de Janeiro, dividida entre os que temem o pequeno gigante da esquerda radical; os que preferem acreditar numa espécie de Syriza domesticável, imediatamente rendido após a vitória eleitoral à lógica amoral do Poder Político; e os que acreditam na vitória do Syriza como prenúncio de uma viragem paradigmática não apenas na gestão da crise das dívidas soberanas, mas sobretudo na relação da Europa consigo mesma e com a sua ideia de projecto de solidariedade;

Enquanto a Europa finge não reparar nas movimentações da extrema-direita xenófoba e da ultra-nacionalista (ambas marcadas por múltiplos espaços de intercepção, mas não necessariamente localizáveis no mesmo espaço do espectro ideológico-partidário, como amiúde se afirma), apostadas em capitalizar a tragédia de Paris para reforço dos seus discursos populistas anti-imigração e anti-islão, embrumadas numa espécie de espírito medieval de cruzadas contra os infiéis, e que mais não são do que o reflexo no espelho do ódio, dos horrores fundamentalistas que dizem querer destruir;

Enquanto tudo isto e muito mais acontece por aqui…
Milhares de crianças e de famílias sofrem na Nigéria (sobretudo na zona nordeste do país) uma tragédia bárbara sobre a qual ainda não se formou, e muito certamente não se formará, nenhum cordão de líderes políticos mundiais.
São negras essas crianças. Estão longe, essas crianças. Demasiado longe para que o resto do mundo faça muito mais do que a politicamente correcta expressão de consternação e dor.
No dialecto Ibibio-Efik, Ayanti é um nome masculino e feminino que significa ‘Lembrar-te-ás de mim?’

As meninas e os meninos Ayanti da Nigéria, escravizados pelas forças abjectas dos homens de Boko Haran, gritam o seu nome ao mundo! As crianças da Nigéria chamam-se Uyai Abasi, a Beleza de Deus, e olham para o mundo à espera que o mundo corajosamente também grite:
Je suis Ayanti, Ich bin Ayanti, I am Ayanti, Eu sou Ayanti, e eu não me esqueço de ti.

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