Correio do Minho

Braga, sábado

Eu gosto é de ir a Fátima!

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2018-07-17 às 06h00

Escritor

Autor: David Lima

Os colegas bem me diziam: “ Não apareces, não sabes o que perdes… Na próxima sexta não te esqueças… Eu vou-te buscar a casa!… Tens que aparecer…”
A insistência já vinha de longe e eu arranjava sempre uma desculpa qualquer…
É verdade que no fim do ano letivo o trabalho é muito; correções de testes, avaliações de várias turmas, relatórios, atas…
Mas pus-me a considerar que deviam, de facto, fazer muita questão que eu fosse àquelas tainadas. Caso contrário, deixavam de me convidar, não é?
Então eu lá apareci. E só me arrependi de não me ter juntado ao grupo, antes, mais vezes.
E nestas coisas toda a gente sabe como é: chouriço, presunto, broa, azeitonas, cerveja ou tintol, produtos portugueses, longe da pátria, saudades… E muita diversão, conversa animada, descontraída… Quanto à conversa, também é fácil supor que se fala de tudo, claro. E mais uma rodada! E é no meio de toda aquela tagarelice, faladura e desconversa que alguém puxou um assunto que tinha a ver com igreja… ou padres… E o Silvino Silva, de Silves, logo sacudiu a água do capote para cima de mim:
­— Ai, isso é ali com o David, que ele é que vai à missa todos os domingos.
E eu: — Por falar nisso, convido-te a fazeres a experiência, no próximo domingo. Vais comigo à Igreja de Lecidere e vais ver que vais gostar. É missa em português…

Ora aí, a retórica do Silvino Silva, de Silves, foi a que muita boa gente já ouviu em muito lado: “ que nem pensar, padres nem vê-los, o padre da minha aldeia isto, o padre da terra da minha mulher aquilo, eles só querem dinheiro… As pessoas que vão à missa são as piores… (Ai, desculpa!) À Igreja só vou a um ou outro casamento, (mas nem entro lá dentro), a um ou outro finado (mas fico no adro)” E três vezes nove vinte e sete… e trinta por uma linha… e noves fora nada… e o diabo a quatro… E nem vale a pena argumentar que não vamos à igreja para adorar o sacerdote, mas para louvar a Deus ou coisas do género.
E depois ele aduz, triunfante, o usual chavão “ eu sou católico não-praticante”. Nota-se que tem tanto orgulho em ser católico, que ainda é de bom tom, quanto em não ser praticante, que é elegante. E eu contraponho que também eu sou avançado do Braga, mas não-praticante; é, nunca vou aos treinos, nunca apareço em campo nas transmissões diretas dos jogos, mas sou do onze da equipa, só que não-praticante.
Mas a parte mais interessante do discurso do meu amigo veio a seguir: “Eu gosto é de ir a Fátima! Não passo um ano sequer sem ir lá, no verão. Eu acredito muito em Nossa Senhora! E depois, almoçar lá, num bom restaurante…
Ora valha-nos ao menos isso! Ora, valha-nos Santa Maria de Muito Longe! Ainda há esperança de salvação para este homem!
­— Ainda bem que acreditas em Nossa Senhora, Silvino, ainda bem! Isso quer dizer que, ao menos, fazes o que Nossa Senhora pediu em Fátima e em muitas outras aparições… Pediu que rezássemos o terço todos os dias… Rezas?
— Népia, eu nunca rezo o terço…
— Que rezemos pelos sacerdotes, pela paz do mundo, pela conversão dos pecadores…. Ao menos fazes isso, não?
— Eu? Eu não…
— Que nos aproximemos da eucaristia, da confissão… Não? Praticar o Evangelho… Também não? Mas, afinal, Silvino, de que Nossa Senhora estás a falar? Em que Nossa Senhora é que acreditas? O que vais fazer a Fátima todos os anos?
Eu acho que o meu amigo nem se apercebe que não é bem um católico não-praticante, é mais não-católico praticante. E esta não-religião é a que conta com mais adeptos, em Portugal e na Europa. Parece que temos vergonha de ser cristãos.
Parece que não precisamos de Deus para nada. E os muçulmanos rezam cinco vezes por dia e o islamismo está a crescer… Quando dermos conta, dominam este velho continente.
— “A seguir, senhores tele-espectadores, a transmissão direta das cerimónias do 13 de maio, da Cova da Iria”…
— Ó Maria, muda-me aí de canal; põe no “sepór-tê-bê”, que “bai” dar o “Braga-Boa-Bista”.
Não falta quem seja astronauta não-praticante! Teorias, Tio Urias! Vai mais um fino, Silvino?

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