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Estudar para quê, se vou para o desemprego?

Viagem a Viena

Escreve quem sabe

2018-09-30 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

O ano letivo iniciou. A escolha da escola e a compra dos livros para os estudantes mais novos, a escolha do curso e acesso ao ensino superior no interior ou litoral, para os que terminaram o ensino secundário e profissional, foi ultrapassada. A estabilidade está a ser reposta e tudo está, nas instituições de ensino secundário, profissional e superior, a funcionar com normalidade. Numa serenidade, a que estamos acostumados, em que a efervescência sindical dos professores e a preocupação dos estudantes do ensino superior, se fazem sentir pelas mais diversas formas de expressão.
Este ano, muito centradas nos problemas relacionados com a progressão nas carreiras dos professores e, com o alojamento de estudantes cada vez mais problemático, com particular incidência nas grandes cidades. Problemas para que o Estado não tem soluções imediatas. Umas fundadas em expetativas precipitadas pelo calor eleitoral, e nos acordos políticos que suportam a atual solução governativa. Outras radicadas, na conjuntura do mercado imobiliário e de arrendamento, e na insuficiência do parque de residências disponíveis, que as instituições de ensino superior não podem, nem vão conseguir resolver. Uma solução difícil de construir, a partir de uma conjugação de esforços, que deverá passar pela envolvência de um vasto conjunto de parceiros e da implementação de novas de soluções, que pressupõem uma refundação do atual modelo.
Seja pela construção de novas residências pela iniciativa das IES. Seja pelo envolvimento das autarquias e a dinamização de novas centralidades de alojamento para estudantes assente no desenvolvimento de novas redes de transportes coletivos de apoio. Seja através de um novo modelo de parcerias com setor privado disponível para investir e a arrendar. Seja através da requalificação de imóveis do Estado e de outras instituições sociais e religiosas, balizados por acordos sustentáveis para as partes envolvidas. Seja mesmo pelo envolvimento das organizações estudantis, numa perspetiva de responsabilidade partilhada.
O problema é complexo, é estruturante e prioritário. Tem que ser solucionado com visão de curto, médio e longo prazo. As soluções têm que ser encontradas de forma gradual. Ao nível das medidas e políticas públicas, que incentivem o acesso dos nossos jovens ao ensino superior e, potenciem a atratividade de estudantes estrangeiros. Uma capacidade de resposta á altura das necessidades de cada ano letivo, olhando para o futuro das dinâmicas demográficas, e não desperdiçando a conjuntura favorável, que resulta da imagem internacional do nosso País e do prestígio conquistado pelas nossas Universidades e Institutos Politécnicos.
Apesar da visão integrada que esta abordagem deve assumir, vamos centrar a reflexão nas interrogações suscitadas pela mudança na educação e pelo novo conceito de emprego que, neste contexto, tratamos na reflexão anterior. Constatamos, neste âmbito que a nossa sociedade está dominada por um mercado de trabalho caracterizado pelo zapping labour, e novas gerações estão confrontadas com um novo conceito de emprego, cada vez menos estável. Devendo por esta razão, ser sustentada numa dimensão social e no desenvolvimento das competências das novas gerações, aos incomensuráveis desafios da sociedade do conhecimento.
A realização de estudos superiores, nesta perspetiva, deve ser transformada numa ambição generalizada. Ainda que nem sempre viável, deve ser identificada com a empregabilidade e a ascensão social. Temos, mais do que nunca, contrariar a ideia errada em relação à opção do prosseguimento de estudos. Uma perceção que tem vindo a ser desvalorizada pelas suas famílias e pelos jovens, que terminam o ensino secundário ou o ensino profissional. Uma imagem que últimos anos, tem vindo a suscitar a dúvida, “estudar para quê, se vou para o desemprego?”. Rui Marques, da Fórum Estudante, na nota de abertura da obra de Diana Aguiar Vieira, “Determinantes e significados do ingresso dos jovens no Ensino Superior: Vozes de estudantes e de profissionais do contexto educativo”, promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, defende que esta ideia fundada, claramente, numa perceção errada.
Contradiz todas as evidências empíricas que demonstram, que as qualificações superiores, correspondem sempre a um maior potencial de empregabilidade, a menor tempo de permanência no desemprego e a uma média salarial mais elevada. Apesar o sentimento contrário, teimar em prevalecer.Afirmando ainda que, esta erosão do valor acrescentado atribuído ao prosseguimento de estudos parece condicionar os jovens e as suas famílias e coloca um desafio às instituições de ensino, aos governos, aos agentes sociais e ao mercado. quando é cada vez mais evidente que a qualificação dos trabalhadores, em particular dos jovens. Faz a diferença no desenvolvimento do País, muitos jovens parecem virar costas a essa oportunidade, optando por baixos níveis de qualificação.
Uma ideia partilhada por Fernanda Rollo, Secretária de Estado da Ciência Tecnologia e do Ensino Superior, dizendo que para melhorar a comunicação, é fundamental compreender mais profundamente as determinantes e os significados do ingresso dos jovens no ensino superior. Construir uma sintonia de comunicação entre as instituições de ensino e os jovens, que visem incentivar o aumento da procura de formação superior por parte dos estudantes em final de secundário.
Portugal tem, a este nível, conhecido um percurso verdadeiramente expressivo e de inquestionável reconhecimento no plano nacional e internacional, nos últimos quarenta anos. A educação superior foi alvo de um investimento significativo, num processo de aprendizagem, com as boas práticas internacionais de países com realidades comparáveis (Dinamarca, Finlândia, Holanda e Irlanda), na demonstração da sua importância do ensino superior para o desenvolvimento económico, a mobilidade social e a realização pessoal, coesão territorial e a coesão social. Evidenciando a relevância do da formação e qualificação superior, posta ao serviço do desenvolvimento cultural, social e económico as instituições de ensino superior têm que apostar e aprofundar a sua relação com as diversas regiões do País.
Vale a pena estudar! Na perspetiva da OCDE, a educação e a qualificação superior são fatores estruturantes da inclusão social e da coesão territorial, e “as competências são a moeda global do século 21, transformam a vida das pessoas e impulsionam as economias”. Reafirmando que, sem um investimento adequado em competências profissionais e superiores, as pessoas definham à margem da sociedade, o progresso tecnológico não se traduz em crescimento económico e os países não podem competir, numa sociedade global cada vez mais baseada no conhecimento.

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