Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Este país é para velhos!

O que nos distingue

Ideias

2012-06-04 às 06h00

Artur Coimbra

1 Doem-me os milhares de jovens que, por estes dias, me entraram pela casa dentro, através da televisão, festivos, esfusiantes, sorridentes, cantando com a maior alegria, levantando as pastas, agitando as fitas, as bengalas, as cartolas, perante o olhar embevecido dos pais e dos familiares mais próximos.
Inquieto-me, como certamente farão milhões de portugueses, perante o final dos cursos destes estudantes do ensino superior, público e privado: que futuro vai ser o destes jovens, tão na flor da idade, tão prenhes de esperanças, de sonhos, de anseios, tão carentes de um risonho por-vir, tão merecedores do melhor do mundo?

É claro que eles se demonstram escorados em esperança, real ou ilusória, embora o mor das vezes ressaiba a resignação: uns afirmam que o que importa é concluir o curso, adquirir o canudo e “logo há-de aparecer alguma coisa…”. Se não for na área de formação, será numa geografia afim.
Outros, mais afoitos e aventureiros, acenam logo com a perspectiva da emigração. Trancadas as portas de um emprego em Portugal, o remédio é abalar para a estranja, onde haja lugar e vencimento compatível.

Penso cá para os meus botões: que raio de país é este que não consegue segurar no seu regaço materno os seus jovens, aqueles que estão na força da vida, da criatividade e do trabalho e que mais e melhor poderiam contribuir para o crescimento da eco-nomia e a reconstrução do tecido empresarial e dos serviços públicos?
Se a idade de reforma é cada vez mais retardada, no pressuposto economicista de que a esperança média de vida está a aumentar, o futuro de Portugal é inexoravelmente de um país de velhos, porque as gerações mais novas e mais capazes vão emigrar e dificilmente voltarão ao seu rincão natal.

Porque, convenhamos, os valores e os sentimentos dos jovens de hoje não têm nada a ver com os que habitavam a cabeça e o coração dos nossos pais e avós, que tinham o apego à terra, a paixão da aldeia ou da vila, onde nasceram ou cresceram. Actualmente, os mais novos já nascem cidadãos globais, homens e mulheres do mundo e por isso não custa a admitir que, partindo para o estrangeiro, sentindo-se por lá bem, realizados, por lá fiquem radicados.
Daí que o envelhecimento da população do nosso país tenha tendência a agravar-se, sem apelo, nos anos que se avizinham, tornando ainda mais fuliginoso o panorama social e a desertificação de grande parte do território, sobretudo do interior. Não tenho a menor dúvida que este país será quase só de terceira idade, não demorará muito!

Por outro lado, que sentido faz estar o Estado português a financiar a formação de dezenas de milhares de jovens, nas mais diversas áreas, aos quais posteriormente não dá resposta no mercado do emprego, acabando por exportar uma mão-de-obra qualificada, que naturalmente os países de acolhimento agradecem, muito penhorados, pois para ela não têm de contribuir?
É um absurdo. Poderão chamar a este fenómeno globalização, abertura de fronteiras, liberalização do mercado laboral. Não deixa de ser uma incongruência sem o mínimo sentido!...
Um país de escassos recursos económicos estar a despender milhões de euros anualmente do seu parco orçamento para qualificar jovens que depois manda emigrar, ou cria constrangimentos de mercado que forçam a essa última solução de procurar emprego além-fronteiras é, no mínimo, disparatado. Pelo me-nos para mim, é!

É por isso que me dói, ao ver na televisão, tanta alegria, tanta esperança, tanta juventude desperdiçada, em diplomas que não servem para nada neste país; apenas servem para alimentar a emigração, como há muitos anos não se via, desde os tempos do fascismo, há 40-50 anos, quando o país era pobre, oprimido, isolado, ignorante e iletrado.
Hoje, volta aos mercados do emprego internacional, um país de novo pobre, embora já livre, formalmente democrático, mais qualificado e formado, sem dúvida. Mas, no final, é o factor económico que tudo determina: a saída ou a permanência da população no país. E ainda dizem que Marx está desactualizado!...

Lembremos que ainda este fim-de-semana foi noticiado que o desemprego jovem atinge cifras da ordem dos 36%. O fatalismo da emigração impõe-se aos mais novos, que o país não consegue absorver pelos mecanismos perversos da crise que se instalou e que teima em não nos abandonar, apesar dos discursos cor de rosa dos governantes que já se começam a ouvir para levantar a moral dos portugueses, quando ciclos eleitorais se aproximam, a começar já em 2013!... Coincidências apenas, claro!...


2 Lê-se e não se acredita: a Comissão Europeia, liderada pelo senhor Durão Barroso, propõe ao Estado português salários mais baixos e corte no subsídio de desemprego. Durão Barroso ganha mais de 25 000 euros por mês. O salário mínimo em Portugal é de 480 euros. Tenham vergonha na cara, esse Durão Barroso, o imbecil do António Borges e outros palermas que acham muito bem que se corte nos salários de quem ganha uma côdea mas não se pode cortar metade de quem aufere fortunas.
Imoralidade e desvergonha, é o que é!...

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

19 Dezembro 2018

Parabéns ao IPCA

18 Dezembro 2018

O seu a seu dono!

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.