Correio do Minho

Braga, sábado

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Estamos no Natal

Viagem a Viena

Escreve quem sabe

2017-12-24 às 06h00

Manuel Barros Manuel Barros

Estamos no Natal. Uma quadra festiva, que é vivida das formas mais variadas, prevalecendo sobre todas as outras, a sua dimensão religiosa. A paz, a harmonia, a família e a solidariedade, entre muitos outros valores, são os pilares de da sua vivência. Uma vivência, que se tem vindo a alongar acentuadamente, porque os dias da festa se tornam escassos para o vastíssimo leque de manifestações de convívio e confraternização, de cariz cultural, social, empresarial e política, que se vão sucedendo ao longo do mês de dezembro, extravasando, mesmo para o mês de janeiro.
Este ano espírito natalício foi brutalmente afetado com um exemplo, que no passado muito recente era considerado como expoente máximo da solidariedade e da gestão, na área da economia social. Fazendo cair um luxuoso véu, que cobria uma pertença obra de solidariedade, que sustentava uma intervenção meritória e de grande alcance social, dedicada a pessoas portadoras de deficiências e doenças raras, que fazemos votos que continue a sua obra, apesar da tempestade que está neste momento, no seu auge.
Falo como é óbvio da “Raríssimas”, ou melhor de Paula brito e Cunha, que usou durante anos, de forma ostensiva uma imagem pessoal faustosa e exuberante, que contracenava com um rol vastíssimo de figuras públicas nacionais, que desembocaram na Rainha de Espanha. Não obstante, do mérito do trabalho desenvolvido por equipas de profissionais, que todos os dias trabalhavam e, todos esperamos que continuem a trabalhar, de forma abnegada, mergulhadas na sua preocupação anónima de atender à necessidade de tratamento e de bem-estar dos utentes, daquela Instituição Particular de Solidariedade Social.
Um acontecimento que escandalizou o país e embaraçou, profundamente, o Governo. O Ministro do Trabalho e da Segurança, foi instado a fazer uma conferência de imprensa, que o envolveu, definitivamente nesta trapalhada. Em que, apesar de tudo garantiu a continuidade da Instituição, e reafirmou a sua permanência no executivo, pondo cobro à instabilidade governativa que se instalou, depois de ter caído o Secretário de Estado da Saúde. Prevalecendo a dúvida, se as irregularidades já eram do conhecimento da tutela, tal era o ruído de fundo nos corredores da tutela, ultrapassado o desvario passional que desmascarou a consultoria do ex-governante.
Os parceiros que acompanham o PS na “geringonça”, hipocritamente, falam sem dizer nada, divagando como é seu costume sobre outros casos laterais. A propósito da garantia do serviço público e das falhas da transparência financeira, e da falta de capacidade de fiscalização do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social, sem apresentar qualquer solução concreta. Pondo tudo em causa, e propositadamente, confundindo o mecenato com o conluio entre o mundo empresarial e as IPSS, ao ponto de o baralhar com os monstros do branqueamento e da fraude.
O escrutínio da gestão e o rigor devem ser garantidos, e os dirigentes das organizações sociais devem estar disponíveis para prestar contas e assegurar a transparência. Mas, não podemos nem devemos tomar a árvore pela floresta, lançando o anátema da desconfiança, sobre um setor que tão importante para a economia e para o mercado de emprego, e neste aspeto o Governo tem estado bem, ao manter um ambiente de alguma serenidade, com a ajuda, mais uma vez, do Presidente da República.
Apesar do momento delicado que estamos a viver, não podemos generalizar de forma gratuita, as relações clientelares e a captura política e empresarial, destas instituições que tem vindo gradualmente, e de forma significativa, a reforçar a sua sustentabilidade, para além do apoio do Estado. O esforço árduo e O trabalho intenso, cujos objetivos e os resultados são inquestionáveis e evidentes, em territórios desprotegidos e em comunidades marcadas pela disfuncionalidade social, numa altura em que a crise económica que assolou o País nos últimos anos, ainda se fazem sentir.
Tal como, alguns de forma ligeira, começam a fazer parecer. A substituição do Estado, na área da intervenção do apoio e da ação social, não é um “fantasma”. As instituições sem fins lucrativos, onde pontuam a Cruz Vermelha, as Misericórdias e os dinamismos de responsabilidade social do setor empresarial, têm desempenhado uma função competente nesta área. A exigência de maior transparência e fiscalização das IPSS, não substitui o princípio original, de capacitar as comunidades com meios e dinâmicas associativas qualificadas e, empresas focadas em investir no terceiro setor, no apoio social e nas causas públicas conexas, para complementar a ação do Estado.
Estamos todos de acordo. O terceiro setor precisa de um modelo regulador mais eficiente para salvaguardar quem trabalha com boa fé. O Estado não tem disponibilidade organizacional e funcional, nem deve substituir os cidadãos organizados que sabem, com toda a certeza, fazer melhor e com mais proximidade esta missão. Devendo ser capaz, de aperfeiçoar permanentemente a máquina fiscal competente, para poder gerar os recursos necessários para fazer face aos encargos decorrentes desta nobre missão. Estando por esta razão obrigado, moral e legalmente, a honrar o esforço contributivo dos cidadãos que voluntariamente e profissionalmente, se dedicam aos mais carenciados e ao desenvolvimento social dos territórios com menos recursos e mais afastados dos centros de decisão.
Estas instituições são cada vez mais estruturantes nas comunidades onde estão integradas. São, grande parte das vezes, os únicos polos de fixação de quadros jovens qualificados, que aportam conhecimento e competências aos modelos de desenvolvimento nos meios urbanos. São redutores de desertificação nos meios rurais, fazendo um trabalho de grande valor acrescentado no apoio às populações nas mais variadas áreas. Lidando com situações extrema, com base numa dinâmica de fortes relações humanas e de intensa sensibilidade, no tratamento de doenças raras e congénitas de acolhimento de crianças abandonadas, de apoio aos cidadãos socialmente excluídos, e de cuidados aos mais idosos.
Como estamos no Natal, devemos destacar o lado positivo da corrente de solidariedade que é alimentada pela economia social. Esta lição da Raríssimas, deverá assumir-se como mote para o profundando a vigilância para estas situações de nepotismo e de novo-riquismo, rodeados de caciquismos e cortes sociais e políticas, mascarados de altruísmos falsos. É urgente distinguir o trigo do joio, doa a quem doer. Não podemos deitar a perder de uma hora para a outra, respostas sociais que demoram anos a implementar, que custaram muitos recursos públicos e privados a construir, deixando ao abandono os que mais precisam, e que foram a razão da sua criação.

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