Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Estamos mergulhados em tradições até ao pescoço

Sinais de pontuação

Ideias

2016-09-28 às 06h00

José Hermínio Machado

Ainda na passada semana, naquele espaço exíguo em que está o túmulo de S. Gonçalo de Amarante, as pessoas circulavam à volta do mesmo e afagavam o rosto e os pés da estátua que o encima, contribuindo para essa espécie de escarificação que é comum observar-se em todas as figuras de santos que estão ao alcance dos peregrinos ou romeiros ou simples turistas curiosos que fazem como vêem fazer em terra onde estão.

O alcance do significado deste gesto pode carecer de muitas e estudadas palavras, mas se o ligarmos ao nosso presente de gestos mediadores e afectivos com pessoas que estimamos, entraremos mais depressa no seu âmago: estamos a estabelecer um contacto com o passado e a trazê-lo para o nosso presente, com toda a densidade de mistério e de revelação que precisarmos. Ainda há um mês, na romaria de Nossa Senhora da Peneda, uma multidão de tocadores de concertina se recolhia no Templo e pedia a bênção do senhor padre, num cerimonial tão antigo como o de todas as bênçãos, descendo depois o escadório a tocar uma antiquíssima cantilena a Maria, Regina Polorum, curiosa interpretação de uma melodia do velho Livro Vermelho de Montserrat, códice de 1399 que recomenda na abertura: «Porque os peregrinos desejavam cantar e dançar enquanto mantinham a vigília noturna na igreja de Santa Maria de Montserrat, e também o desejavam de dia; mas na igreja não se devem cantar senão melodias castas e pias, e por isso foram escritas as canções que aqui aparecem. E devem ser usadas com modéstia, cuidando que ninguém que esteja orando e contemplando devotamente seja perturbado.'

Porque é que no nosso presente precisamos de enraizar os nossos gestos e os nossos comportamentos num passado apaziguador de toda a conflitualidade e inspirador de harmonia? Vem a propósito uma citação, ou apanhado de entrevista, que colhi em John Banville, escritor irlandês, já nos 70 anos, quando veio a Portugal, em Maio passado, apresentar o seu livro A Guitarra Azul, acerca desta necessidade de um tempo mítico fundador de todas as tradições: «É o mito do Jardim do Éden: achamos sempre que, no passado, tudo corria bem e éramos felizes. Mas o passado era o presente. Era tão aborrecido e cinzento como é agora o presente, mas algo acontece que torna o passado vibrante e luminoso, de uma forma que não pode ter sido quando era presente. Há duas possibilidades: ou imaginamos o passado ou não valorizamos suficientemente o presente quando o estamos a viver.

Estamos constantemente a olhar para o que virá a seguir e a ignorar o que está aqui.» (http://observador.pt/especiais/john-banville-os-homens-nao-crescem-somos-bebes-grandes/) As tradições circulam connosco à velocidade em que estamos: estão entranhadas antes de mais na linguagem: toda a história das palavras reflecte as variações de construção do sentido e nos reenvia para experiências fundadoras, numa concretização da longa duração que já tem a linguagem com o mundo; estão entranhadas no edificado, patrimonial ou não, como de repente se descobriu nesse regresso à ideia de uma humanidade que precisa de resguardar todo o seu património (vejamos como se desenvolvem os movimentos de organização do património material e imaterial da humanidade); estão entranhadas nos eventos cíclicos, festivos, celebratórios, rituais (até os concertos de rock ou pop já não passam sem os momentos tribais de acendimento da vela votiva, seja isqueiro ou telemóvel); estão entranhadas no acumulado de cada área do conhecimento, científico mesmo (todas as descobertas têm um passado de ansiedade); estão entranhadas nas imagens, nos sinais, nas configurações até que a natureza vai exibindo. Voltaremos ao assunto.

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