Correio do Minho

Braga, sábado

Estamos entregues à bicharada

Consumidores mais habilitados a comparar comissões bancárias a partir de 1 de outubro

Ideias

2011-04-04 às 06h00

Artur Coimbra

1 - Tal como se antevia, o primeiro-ministro José Sócrates apresentou a sua demissão, a meio da passada semana, após o clamoroso chumbo do PEC 4, na Assembleia da República, abrindo uma crise política que vai durar alguns meses até à realização de eleições antecipadas, em 5 de Junho. Crise que acaba por agra-var seriamente a delicadíssima situação económica em que estamos mergulhados, depois de anos a viver à tripa forra. Como um guerreiro que não dá a bata-lha por perdida, nas circunstâncias mais adversas, afirmou logo, convictamente: “eu vou, mas eu volto”! Só o futuro dirá se fez bem ou mal. É claro que o país está farto de Sócrates. Um Sócrates determinado, patriota, lutador pelas causas em que acredita, ninguém duvida, mas um Sócrates também enredado em escândalos demasiados, prepotente, arrogante, injusto politicamente, fraquíssimo perante os fortes, que o mesmo é dizer, o sistema financeiro, os potentados económicos, fortíssimo perante os mais pobres e despossuídos. Um Sócrates vaidoso e petulante que muitos portugueses querem ver pelas costas.
Ninguém nega ao ex-inquilino de S. Bento as qualidades de carácter que fizeram dele um primeiro-ministro razoável durante alguns anos, com pretensões a ficar na “História” por boas razões (presumíveis reformas, a maioria forçadas e impostas, em diversos sectores, que foram feitas contra os alegados “interesses instalados”, sejam os professores, os médicos, o funcionalismo público e outros sectores que nunca haviam sido tão achincalhados nas suas carreiras como durante o seu consulado …), mas que se enredou em contradições, paradoxos e iniquidades que desemboca-ram na inevitabilidade do seu despedimento, curiosamente no dia a seguir ao badalado acordo com parte dos parceiros sociais visando, entre outras medidas, facilitar os despedimentos. O primeiro a ser despedido foi precisamente o governo, para comprovar que o dito acordo funciona!
Após a sua demissão e a marcação de eleições para daqui a dois meses, fala-se hoje, nos diversos meios, de José Sócrates quase como passado irrevogável, o que não deixa de ser caricato, até porque o executivo continuará em funções de gestão até ao final de Junho, ou seja, pelo menos nos próximos três meses.
Não há dúvida que só um milagre fará com que José Sócrates continue, penalizando as suas manias, a sua imagem obsidiante, o seu desgaste, o seu deserto de esperança, o exagero da sua pose plástica e muitas vezes artificial.

2 - Mas se José Sócrates é mau, nesta conjuntura, Passos Coelho será certamente pior. Ele é igual a Sócrates na vaidade, na petulância, no arrivismo, no aparelhismo, na ambição desmesurada. Mas é muito pior que Sócrates: porque não tem experiência governativa, não demonstra segurança no que diz e no que faz, apesar de disfarçar o contrário, é dissimulado e fingido, não ins-pira a mínima confiança a não ser aos apaniguados. É evidente que vai tirar proveito de um Só-crates “queimado” por medidas impopulares, sobretudo nos cor-tes de ordenados e pensões, mas rapidamente será ele próprio sa-crificado no altar de outras medidas mais gravosas que inevitavelmente vai ter de tomar, se os portugueses o elegerem para comandar os destinos da Nação. Disso não tenha a menor ilusão.
Começa mal, quando avança para imediato aumento de impostos, como o IVA generalizado, apesar do truque de afirmar que não engana ninguém, como se a semântica fosse o mais importante para a boca dos portugueses.
Começa pessimamente quando propõe a abolição da avaliação dos professores, nesta altura do ano, com a maior incoerência e com a maior sofreguidão de po-der. Para ser simpático e populista, como é óbvio!...
E fica-se siderado quando se fica a saber que Passos Coelho reprovou o PEC 4, “não porque foi longe de mais, mas porque não vai suficientemente longe para obter resultados na dívida pública”. Por esta breve amostra se pode ficar com uma ideia do que espera os portugueses se elegerem Passos Coelho. Vai aumentar impostos e retirar o 13.º mês aos trabalhadores, seguindo a “cartilha” desse emérito democrata António Vodafone Carrapatoso. Vai alienar parte da Caixa Geral de Depósitos. Vai vender o que ainda houver para alienar. Vai “emagrecer” e “reduzir” o Estado, despedindo funcionários públicos; acabar com o pouco que resta do Estado Social; privatizar a saúde e a educação, deixando o sector público para os mais pobres, mas com a pior qualidade.
Os portugueses não podem esperar milagres deste líder apresentado como “um homem invulgar” (em quê, Felícia Cabrita?) que vai vender a maior demagogia nos próximos meses!

3 - Ou seja, estamos entregues à bicharada. Como afirmou por es-tes dias o ex-ministro das Finanças Campos e Cunha, “estamos a viver um filme de terror em que o drácula culpa a vítima de lhe sugar o sangue”.
Vivemos dias de dramático, obsessivo e cansativo pingue-pongue: saber quem tem a culpa de abrir a crise; quem chumbou o PEC ou quem queria agravar a condição de vida dos portugueses; saber quem deve chamar o FMI, se o governo, que tem toda a legitimidade, ou o Presidente da República, que chuta a bola para canto. E andamos nisto entretidos, com as malfadadas agências de rating, todas sedeadas, por mero acaso, nos EUA e instrumentos da vontade americana de arrasar o euro, a dar directrizes à porcaria dos “mercados” especuladores, para ir acabando com as economias mais frágeis, para chegar às mais fortes. A estratégia é essa.
Mas enquanto não chega o FMI, e rasga a direito, sem contemplações, vamo-nos preparando para as eleições, com o habitual folclore, o bacalhau a pataco, as promessas para (não) cumprir, a demagogia à maneira, os hinos, as bandeiras, os tempos de antena, a animação habitual, porque para foguetes tem de haver….
É Portugal no seu melhor!...

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