Correio do Minho

Braga, terça-feira

Estado solidário

Dar banho às virgens

Ideias

2010-06-08 às 06h00

Jorge Cruz

Cerca de 95 mil crianças e mais de 115 mil idosos são obrigados a recorrer diariamente à ajuda do Banco Alimentar contra a Fome. Estes números, alarmantes e que devem fazer corar de vergonha todos os portugueses, foram revelados ontem pelo JN, num trabalho em que se procurou dar a conhecer a verdadeira extensão deste flagelo em Portugal.

Actualmente, o Banco Alimentar está a prestar auxílio a um total de 285 mil pessoas, um número assustador mas que, ainda assim, não corresponde à totalidade da população portuguesa com carências alimentares. Por um lado, porque aquela rede de ajuda alimentar não cobre todo o território nacional (a Madeira não é abrangida) e, por outro, porque não é difícil adivinhar que ainda há muita pobreza envergonhada que, por razões que não vêm agora ao caso, não recorrem a estes apoios.

De resto, e conforme também foi bem sublinhado no trabalho jornalístico que alerta para a situação, em Portugal não existem dados concretos e fiáveis sobre a população infantil afectada por este flagelo. A jornalista do JN bem tentou apurar junto da Direcção-Geral da Saúde e da Comissão de Acompanhamento da Acção para Crianças e Jovens em Risco, mas a verdade é que não obteve qualquer resposta satisfatória sobre essa questão. Acontece que o desconhecimento da situação real não é exclusivo desta faixa etária. Se exceptuarmos os dados divulgados pela presidente do Banco Alimentar, também não se conhecem os números relativos ao todo populacional afectado pela fome.

Infelizmente, o problema das crescentes carências alimentares no nosso país não é novo. Arrasta-se há alguns anos mas tem-se vindo a agravar nos últimos tempos de uma forma medonha, em função do enorme aumento do desemprego e também da desestruturação das famílias. Igualmente os chamados novos pobres, pessoas com emprego mas cujo rendimento mensal se mostra insuficiente para cobrir todas as despesas do agregado familiar, engrossam diariamente o número de afectados por este flagelo.

É para este já enorme conjunto de pessoas mais desfavorecidas e debilitadas que o Estado tem que olhar com maior preocupação.
As cerca de 95 mil crianças são merecedoras, naturalmente e pela sua enorme fragilidade, de uma maior atenção, de um cuidado mais particular. Penso, aliás, que o Estado deve procurar facultar-lhes condições de equidade logo nos bancos da escola, porque todos sabemos que a subnutrição condiciona drasticamente o desenvolvimento, físico e intelectual, o que não é compaginável com crescimento saudável e com bom aproveitamento escolar que todos queremos que alcancem.

Não ignoro que, neste campo específico, já existem algumas ajudas às crianças oriundas de famílias mais carenciadas, designadamente os programas de generalização de refeições e de leite e, mais recentemente, o de fruta escolar, mas também sei que em muitos casos essas são as suas únicas refeições diárias.
O Estado social tem de se preocupar com estas crianças, tem de ser solidário com as suas famílias, e isso passa, em primeiro lugar, por fazer um levantamento tão exaustivo quanto possível da situação para se saber, com o máximo rigor, os verdadeiros contornos do problema e o atacar convenientemente.

Mas se é verdadeiramente chocante termos, no mínimo, cerca de 95 mil crianças a necessitarem de cuidados ao nível da alimentação, também não deixa de ser infame que, no caso dos idosos, esse número ronde os 115 mil. Ou seja, o conjunto de concidadãos das duas faixas etárias mais sensíveis e frágeis, aqueles que em condições normais mais cuidado e acompanhamento devem ter, já ultrapassa as 210 mil pessoas.

A este já numeroso grupo temos ainda que acrescentar os restantes cerca de 75 mil que recorrem diariamente à ajuda do Banco Alimentar Contra a Fome, que perfazem os tais 285 mil. Embora não exista uma caracterização sociológica deste grupo, não custa a acreditar que nele se integrem algumas camadas da juventude que ainda não encontrou o seu primeiro emprego bem como muitos casais desempregados, desesperados por se confrontarem com o facto de serem excessivamente “velhos” para conseguirem trabalho mas demasiado jovens para obterem a reforma.

É um número que necessariamente tem que nos fazer pensar e que não pode deixar de preocupar sobremaneira os principais responsáveis políticos. Porque mesmo em alturas de grave crise económica como a que atravessamos, um Estado moderno e democrático não pode esquecer uma parte dos seus cidadãos, tem que ser solidário com eles, principalmente com aqueles, como é o caso vertente, que mais precisam. É também para isso que o Estado serve e é esse tipo de res-posta solidária que os cidadãos esperam.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

13 Novembro 2018

Braga Capital

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.