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Ideias

2014-12-05 às 06h00

José Manuel Cruz

Obama ascendeu à presidência dos EUA por mérito próprio, e porque os votantes que lhe fizeram confiança estavam saturados do aventureirismo militar da administração de Bush filho. Anos volvidos, perde o mesmo Obama a simpatia dos seus concidadãos, que lhe reprovam a flacidez da política externa: que a América já não se opõe com veemência e eficácia aos russos, que a América já não corta e risca no médio oriente. Eu teria ficado muito mais descansado e satisfeito se a opinião pública americana descontasse a Obama não a tibieza da intervenção na Síria, mas o facto em si de ter favorecido uma dissidência armada e um afrontamento a Bashar al Assad.
O caos da Líbia e do Iraque deveria tê-los feito absterem-se de proselitismo democrático de inspiração ocidental. No actual estado de coisas, mais do que beneficiarem da suposta vantagem da nossa organização social, pagam sírios, líbios e iraquianos, pela exportação atabalhoada das nossas convicções.

Conhecíamos o ódio israelo-palestiniano, e das longínquas cruzadas vinha a inimizade jurada entre cristãos e muçulmanos. Acordamos escandalizados, hoje, para as relações sanguinárias entre xiitas e sunitas. Assim, mesmo que a contragosto, somos obrigados a consciencializar que as disputas são mesmo entre homens, e que o móbil é a sempiterna cupidez. As quezílias selvagens entre islamitas não são mais abjectas do que aquelas que os cristãos protagonizaram em tempos, antes e depois da Reforma.
Não deveria ser difícil perceber a quem é que aproveitam todas estas convulsões. Não deveria ser difícil isolar interesses mesquinhos disfarçados por grandes palavras.
Um cortejo com centenas de anos atesta-nos que a santidade, a bondade e a misericórdia, só por excepção foram praticadas por quem as defendia em sermões inflamados. Com a Liberdade e a Democracia algo de similar se deverá passar nos dias de hoje.
O cristianismo tem esta supremacia sobre o islão - admite a crítica, não sobrepõe a fé ao indivíduo. Se o cristianismo convive confortavelmente com o facto de ser um não-poder, outro tanto não se passa com o islamismo. Salman Rushdie foi alvo de um decreto de morte por liberdades literárias julgadas sacrílegas. Os mesmos poderes religiosos, porém, convivem sem sobressaslto com distorções belicistas do islão, com raptos, assassinatos e conversões compulsivas.
Fizemos meio caminho, falta outro meio. A autonomia de pensamento que conquistamos em relação à religião devemos persegui-la, agora, em relação ao poder político.
Capacitemo-nos que precisamos de fazer um juízo independente sobre quem nos lidera e decreta sobre os nossos destinos, sobre as forças visíveis e as forças dissimuladas que operam sobre as nossas vidas. Nula que seja a simpatia que tenhamos em relação ao islão, nula que seja a ideia de que possamos conviver em paz num mesmo território, deve-nos perseguir a ideia de que os agentes que nos jogam uns contra os outros se movimentam num plano de interesse completamente distinto, e não há Maomé que possa dar cobertura ao saque deliberado e ao tráfico de petróleo.
Vive-se em França a iminência de um choque entre cristãos e muçulmanos. Talvez na Inglaterra e na Holanda se cozinhe um estado de coisas análogo.
Nas palavras de amigos surpreendo um repúdio depreciativo dos “árabes”, sendo que têm eles próprios bons amigos entre esses mesmos “árabes”.
Há muçulmanos perfeitamente assimilados, que em momento algum alardeiam convicções ou sublinham clivagens, mas há todo um vasto conjunto de outros que prolongam desmesuradamente folclores e idiossincrasias de que jamais conseguirão sair airosamente. Centenas de indivíduos, maioritariamente jovens, têm saído de França para se juntarem às hostes que combatem na Síria e no Iraque, para se associarem aos que reivindicam execuções bárbaras bem distantes de qualquer teatro de guerra. Por ora tem prevalecido uma “cultura de esquerda” tolerante ao multicularismo e condescendente com as mais amplas liberdades individuais. Mas nada garante que assim continue.
Suportada ou não em factos substanciais, faz curso a ideia que uma percentagem significativa do deficit de estado francês decorre das múltiplas ajudas a desempregados, boa parte dos quais de confissão muçulmana. Abespinham-se, sectores da opinião pública francesa, que indivíduos tão prontos a sublinhar as suas particularidades, até uma certa supremacia de valores, conviva tão tranquilamente com pensões e facilidades prestadas nos serviços públicos.
Contas se fazem pelas quais se demonstra que há mais vantagem em não trabalhar, vivendo com toda a tranquilidade da assistência social. Talvez aqui haja um certo preconceito, mas os estereótipos são muito potentes quando toca a definir atitudes e comportamentos colectivos. Rode a política francesa para a direira, como é inquestionável que vai acontecer, assista-se a um corte radical no modelo assistencialista, tal como o eleitorado maioritário exige, e temos o caldo entornado.
Talvez com uma ponta de ironia, há muito quem diga que têm todos abrigo garantido nas elegantes monarquias da arábia e do golfo pérsico.

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