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Esta maçã é muito feia para si?

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Esta maçã é muito feia para si?

Escreve quem sabe

2021-04-26 às 06h00

Álvaro Moreira da Silva Álvaro Moreira da Silva

Atribuir um menor preço a um produto que se encontre perto da sua data de consumo não é prática recente. Não só permite que os retalhistas reduzam a perda da organização, como também lhes permite escoar os produtos em fim de validade, ainda que a venda implique uma margem de lucro menor. Segundo Hooge et al. (2017), em “This apple is too ugly for me!!”, o preço tem sido usado para vender alimentos “subótimos”, que correspondem a alimentos que se desviem do conceito de “ótimo” aos olhos do consumidor, no-meadamente por estarem perto do seu prazo para consumo.

Durante uma visita a uma pequena loja, deparei-me com alguns produtos iguais e da mesma marca, mas cuja data de validade variava. Muito embora o preço aplicado no produto de menor data fosse inferior, a minha escolha incidiu sobre o produto com data mais prolongada e, naturalmente, mais caro. Esta decisão prendeu-se com o facto de não ter a precisa noção de quando o pretendia consumir e, logicamente, a data posterior dava-me uma margem de tempo mais confortável para o fazer.
Curiosamente, chegado a casa, tentei aprofundar o conhecimento sobre os temas “datas de consumo, preço e desperdício” no amplo contexto da cadeia de abastecimento e produtos alimentares. O relatório de 2021 das Nações Unidas, “Índice de Desperdício de Alimentos” alertou-me para números incrivelmente altos. Por exemplo, em 2019, foram gerados cerca de 931 milhões de toneladas de resíduos alimentares, dos quais 61% foram provenientes de famílias, 26% de serviços de alimentação e 13% do retalho. No que respeita ao desperdício, aproximadamente 18% da produção global de alimentos é desperdiçada (11% nas famílias, 5% em serviços de alimentação e 2% no retalho), o que corresponde a uma média total de desperdício a rondar os 74kg pessoa/ano.

Theotokis et. al (2012), em “Effects of Expiration Date-Based Pricing on Brand Image Perceptions”, sugerem que muitos retalhistas aplicam diversos tipos de técnicas de redução de preço em produtos que se aproximam das datas de expiração, nomeadamente nos perecíveis. Os autores afirmam que os consumidores poderão atribuir esta descida de preço à menor qualidade das marcas, salvo quando estejam conscientes de que um dos objetivos da ação de marketing será também contribuir para a redução de desperdício. Na mesma linha de pensamento, no estudo “Consumer perception and preference for suboptimal food under the emerging practice of expiration date based pricing in supermarkets”, Jessica Aschemann-Witzel (2018) conclui que os consumidores tendem a comprar alimentos ótimos ao invés de subótimos. Por conseguinte, para incentivar os consumidores a selecionarem alimentos subótimos e, assim, contribuirem para a diminuição do desperdício, sugere a aplicação de reduções nos preços, consoante a data de valida- de. Não obstante, a autora alerta para o facto de não estar claro que fatores contextuais, individuais e relacionados com o produto afetem a probabilidade de escolha do consumidor, pelo que a aceitação desta prática, a longo prazo, é questionada. Por outro lado, indica que existe um positivo efeito quando a prática é suportada por uma ação de marketing e sensibilização, nomeadamente enaltecendo a importância de se evitar o desperdício de alimentos no contexto global.
A data de validade de um produto é um atributo extremamente importante no retalho, nomeadamente no alimentar. Sim, é certo que o aspeto visual da maçã é importante e nos influencia no momento da sua seleção. É certo que um produto ótimo tem, por vezes, um impacto mais poderoso do que um subótimo e transmite mais segurança e/ou liberdade de consumo. Mas, será que é possível reprogramarmos as nossas escolhas em prol da redução do desperdício? Termino este artigo um pouco mais sensibilizado para esta aprendizagem. E o leitor?

*com JMS

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