Correio do Minho

Braga, sexta-feira

Esta Europa não diz nada aos cidadãos!

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Ideias

2014-03-24 às 06h00

Artur Coimbra

1. À sua indeclinável imagem e semelhança, o Presidente da República dirigiu na passada quarta-feira à noite uma solene mensagem ao país, através da televisão, comunicando o que toda a gente já sabia há meses: que as eleições para o Parlamento Europeu vão ter lugar no dia 25 de Maio. Revelação bombástica, sem dúvida!
Cavaco Silva aproveitou para pedir aos partidos políticos soluções para o país e não a “crispação e conflitualidade” que se espera. “Para que exista um debate de ideias em vez de uma troca de ataques”, concretizou o chefe de Estado, que criticou, mais uma vez, “as querelas artificiais e as controvérsias estéreis” entre partidos que “impedem o debate e o encontro de soluções”.
Cavaco Silva deveria estar a lembrar-se especialmente do seu próprio partido e do trauliteiro Paulo Rangel, que tem feito da pré-campanha um sistemático e descabelado ataque ao Partido Socialista, sem qualquer ideia de Europa mas apenas de mero prazer de aproveitar todos os momentos mediáticos para causticar o principal partido da oposição, a propósito de tudo, de nada e do seu contrário.
Depois, vem o seu chefe, Passos Coelho, com as calças na mão, salvo seja, sempre que a coisa começa a apertar, brandir a necessidade e urgência do “consenso alargado”, da convergência de posições, do plástico “patriotismo” balofo, para que os santificados “mercados”, que nos emprestam dinheiro a juros autenticamente agiotas, não fiquem “nervosos e inseguros”, coitados. Nas farmácias parece que ainda não esgotou o Xanax. E, curiosamente, estas pessoas que com tão postiço dramatismo apelam à confluência de posições, como se cansam Cavaco e Passos, ainda não conseguiram ter uma palavra sequer, uma alusão, uma sílaba, para a maior crise financeira do ano de 2013, que prejudicou o país em 850 milhões de euros, que foi a célebre cena canalha da “irrevogável” infantilidade de Paulo Portas.
Portugal poderia hoje estar bem melhor, do ponto de vista económico e financeiro; os portugueses poderiam estar mais felizes e com mais dinheiro nos bolsos, para fortalecer a economia e criar empregos, se não fosse esse lamentável, indesculpável e antipatriótico episódio, que caiu deliberadamente no limbo do esquecimento dos nossos governantes e do seu supremo magistrado.
É inacreditável!



2. A mensagem de Cavaco Silva é prioritariamente dirigida ao ambiente interno. Que atravessamos “um momento muito complexo da vida nacional” em que deve “definir com clareza que linha de rumo irá seguir”, após a conclusão do programa de assistência económica e financeira. Por isso, o titular de Belém propõe que a campanha eleitoral que se aproxima deve decorrer de uma “forma esclarecedora, serena e elevada”, o que, visto o que se tem visto, não é para este país, a começar pela família política que o Presidente da República claramente apoia, legitima e sufraga, sem qualquer dúvida ou réstia de escrúpulo. 
Por isso, tudo o que possa pedir sobre esta matéria dever fazê-lo em primeiro lugar aos seus correligionários, que são os que demonstram uma intragável sobranceria ideológica, porque os portugueses, em geral, bem pacientes, pacíficos e calmos têm estado, para suportar todas as agressões, cortes e empobrecimento que a direita tem infligido à generalidade dos trabalhadores e dos pensionistas.



3. Finalmente, o essencial. Cavaco Silva pediu aos portugueses uma “participação activa” no sufrágio de 25 de Maio, alegando que “o futuro da Europa é o futuro de Portugal”. Aí é que bate o ponto.
A Europa, enquanto projecto político, económico e social comum não passa de uma mistificação. A “Europa das pessoas”, que nos vendem quando convém, não existe. Existe a moeda única, que levou ao generalizado encarecimento da vida neste país quando começou a circular. Existem fundos comunitários, para nos darem a ideia de ajuda e de preocupação com os portugueses, quando os principais produtores europeus pretendem é chegar com os seus produtos mais rapidamente a Portugal. Existem países ricos que orientam a política europeia em função dos seus interesses estratégicos e países pobres que sobrevivem como podem, subservientes e de chapéu na mão, como faz o nosso primeiro-ministro. A proclamada “solidariedade europeia” é uma treta. A Europa é uma confederação de interesses, de mercados, de agiotagem capitalista. Falta-lhe alma, escasseia-lhe o coração.
Por isso, a Europa não diz nada aos cidadãos, porque não passa de uma superestrutura burocrática, longínqua, obsoleta, caricata, tantas vezes, quando ousa regulamentar aspectos da vida quotidiana.
Que Portugal tenha agora 21 deputados, quando já teve 22, significa exactamente o mesmo, o contrário do que refere Cavaco: que devem ter como “prioridade” da sua actuação políticas de “crescimento económico, criação de emprego e coesão social”.
Os eurodeputados portugueses não decidem nada, da sua acção e empenhamento, louváveis, sem dúvida, nada resulta. Porque a política europeia não é decidida no Parlamento Europeu, por povoado que seja por centenas largas de deputados que ninguém sabe o que fazem ou para que servem. Quem decide a política europeia é a chanceler alemã. Porque a Alemanha é quem manda na Europa. O resto é conversa, insignificante como as eleições para o Parlamento Europeu.
A Europa está-se marimbando para os países periféricos, como é o caso de Portugal. O nosso país só lhe interessa para escoar os seus produtos industriais ou financeiros, se der oportunidade aos bancos alemães para ganharem dinheiro à custa do sofrimento dos cidadãos portugueses.
Não podemos esquecer que os maiores carrascos de Portugal, nos últimos três anos, no âmbito da malfadada tróica, são instituições europeias: o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia, dirigida por um português que nos envergonha, de seu nome José Manuel Durão Barroso. Ambas insistiram deliberada e reiteradamente na duvidosa receita da austeridade, do empobrecimento, do descalabro da economia, do aumento do desemprego, do reforço da emigração para níveis de há meio século.
É por estas e por outras, por estes factos reais, não pela ideia ou pelos princípios abstractos, que a Europa, como está desenhada e manietada actualmente, não interessa a ninguém.
Por isso, as eleições para o Parlamento Europeu a poucos devem interessar, a não ser para os directórios partidários que têm contas a fazer, internamente, ou para os próprios interessados em sentar o traseiro nas cadeiras endinheiradas de Bruxelas e de Estrasburgo.
A generalidade dos cidadãos tem mais que fazer!

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