Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Esquizofrenia ou insensibilidade?

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2012-05-15 às 06h00

Jorge Cruz

“Despedir-se ou ser despedido não tem de ser um estigma, tem de representar também uma oportunidade para mudar de vida, tem de representar uma livre escolha também, uma mobilidade da própria sociedade”.

A afirmação, no mínimo desconcertante, foi proferida no final da passada semana pelo Primeiro-ministro e, como seria espectável, suscitou uma onda de indignação não apenas nas oposições mas um pouco por todo o país.
Percebe-se que o desemprego, em particular aquele que decorre do despedimento voluntário, possa ser o ensejo para a tal mudança de vida de que fala Passos Coelho. Mas para que tal suceda torna-se absolutamente necessário que o contexto económico seja favorável o que, como é sabido, não acontece.

Numa altura em que as empresas se defrontam com dificuldades frequentemente inultrapassáveis, num momento em que a estagnação da economia conduz a um aumento medonho de insolvências, não se pode esperar que alguém arrisque num negócio próprio. E isso é tanto mais verdadeiro quanto é certo que os apoios e incentivos para esse fim escasseiam cada vez mais.

É também por essa razão que as palavras do Primeiro-ministro traduzem, no mínimo, uma insensibilidade atroz e uma ofensa directa a mais de um milhão de portugueses que quer trabalhar e não lhe é dada a oportunidade para tal.
Creio que o objectivo de Passos Coelho era, antes de mais, tentar desdramatizar as previ-sões da Comissão Europeia relativamente ao aumento do desemprego em Portugal, nada favoráveis ao nosso país.

De facto, na análise desta intervenção polémica não pode-mos perder de vista as palavras do Comissário Europeu para os Assuntos Económicos, designadamente quando admitiu um agravamento das previsões do desemprego no nosso país. Aquele responsável apresentou um quadro muito pouco simpático, com a taxa de desemprego em Portugal a atingir este ano os 15,5 por cento e diminuindo apenas para 15,1 por cento em 2013, afinal uma moldura com números superiores às estimativas do Governo.

Será, pois, à luz das más notícias divulgadas na conferência de imprensa de Bruxelas para apresentação das “previsões económicas da Primavera” que devem ser entendidas as afirmações de Passos Coelho. Tal não invalida, porém, bem pelo contrário, a justeza de muitas das críticas que de imediato suscitaram. Aliás, na manhã desse mesmo dia o próprio ministro das Finanças tinha manifestado a sua convicção de que a experiência de estar desempregado não é idêntica a outros acontecimentos trágicos. “Comparado com outras experiências negativas, a satisfação de vida de um desempregado não se recupera, mesmo depois de estar desempregado há muito tempo”, disse na altura Vítor Gaspar.

Independentemente do prisma por que se analise o discurso do Primeiro-ministro, algumas conclusões parecem perfeitamente óbvias e consensuais: trata-se de uma intervenção muito arriscada e pouco cautelosa, no plano comunicacional, e que denota uma insensibilidade colossal, no plano social. Em resumo, um autêntico desastre.

Com efeito, este triste episódio serviu para perceber melhor, entre outras coisas, o pensamento político do Governo suportado pela coligação de direita sobre a política de trabalho e do emprego. Ficou a saber-se que para o Governo de Passos Coelho a elevada taxa de desemprego não é dramática, antes se apresenta como uma “oportunidade para mudar de vida”.

Mas essa até nem será grande novidade se nos lembrarmos que foi precisamente este Governo que reduziu drasticamente o equilíbrio entre o capital e o trabalho, facilitando os despedimentos e a precaridade; que foi o Executivo de Passos Coelho que mais penalizou os funcionários públicos, pensionistas e restantes trabalhadores por conta de outrem.

É certo que de vez em quando são proferidas palavras de preocupação pelo flagelo do desemprego e pela insustentável situação em que foram colocadas milhares e milhares de pequenas e médias empresas mas essas posições parecem apenas representar lágrimas de crocodilo de uma esquizofrenia política a que este governo já nos habituou.

Depois deste lamentável episódio protagonizado por Passos Coelho, de resto com a posição reiterada no fim-de-semana, a mensagem que passou para os portugueses, em particular para os jovens à procura do primeiro emprego e para os mais de 800 mil desempregados, é a de uma enorme insensibilidade e de desrespeito pelos compatriotas.

Compreende-se que nos dias que correm “não temos empregos para a vida inteira, como não temos empresas para a eternidade”, mas tal não pode significar, como o Primeiro-ministro afirmou, que o desemprego não seja um factor altamente negativo e uma autêntica tragédia para um país. Seguramente não é, nas actuais circunstâncias, uma janela de oportunidades.

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