Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Esquemas mentais

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2013-03-11 às 06h00

José Manuel Cruz

Passa na televisão a reportagens das manifestações de sábado. Como outros, cada com seu tema, um cartaz: ser rico para estudar só no tempo de Salazar! Não pude fixar o portador do cartaz, se era novo ou velho; não pude perceber se seria aluno ou progenitor; não pude concluir se o cartaz expressava um pesar pessoal, ou se era uma palavra de ordem avulsa, composta para a coreografia geral.

Que o ensino está perigosamente caro, quanto a isso não há dúvida. Creio que mais caro até do que no tempo de Salazar ou Caetano. No tempo para que nos remete o cartaz, estudavam os ricos, mas nem todos: os que queriam, os que poderiam tirar proveito do estudo, marrando, respondendo em exames, mostrando domínio das matérias. No tempo para que nos remete o cartaz, também estudavam os filhos de famílias remediadas. Seguramente com sacrifício familiar, com algum apoio de padrinhos e patronos, porventura sem direito a chumbos ou boa-vida, mas os mais expeditos e dotados lá faziam caminho nos estudos, duma assentada, ou intercalando trabalho e estudo.

Havia muito jovem com rasgo, inteligente, que não fazia percurso escolar? Claro que sim! Mas não é por isso que o cartaz não deixa de ser equívoco. O mundo não cairá por um equívoco! E se vivermos, ano após ano, enganchando equívocos numa cadeia interminável de deturpações da realidade - não acabaremos nós a julgar o justo pelo pecador, confundindo vício e virtude?

É incomportavelmente caro estudar? Tanto ou mais que ao tempo do Estado Novo! Pior é não ter o que fazer pela conclusão de um curso, drama que era desconhecido nos anos ’60, e nas duas décadas seguintes. A organização social no Estado Novo era muito exclusiva, estratificada, favorecedora de privilégios? Bom, eu não ficaria escandalizado se um estudo sociológico competente concluís-se que se extrai hoje menos benefício de um curso superior, que hoje há mais imobilismo e menos progressão social. E não será pelo agudizar da crise nos últimos anos.

Vivemos segundo a ideia que a sociedade do antigamente era opressiva, não favorecia o desenvolvimento pessoal, se apressava a coartar a liberdade individual, que era uma sociedade intrinsecamente infeliz. Nalguma parte será verdade, mas não me consta que o impulso criativo não encontrasse por onde se expandir, e quanto aos dias de hoje, ainda estou para encontrar o primeiro que transpire felicidade, que viva com um sentimento de tranquilidade, que se atreva a fazer planos de longa duração, que veja florescer o fruto do seu trabalho e acumular uma generosa poupança para a velhice.

Nos quase quarenta nos que levamos neste ordenamento político - não teria dado para organizar uma vida económica e social em termos? Visto para trás, não acho que se encontre alguém que dissesse que não da-ria: em quarenta anos mudava-se o mundo, quanto mais Portugal! O problema é que aceitamos como perfeitamente legítimas as explicações graduais: primeiro não deu, por causa da pesada herança fascista, depois não deu por causa da pesada herança revolucionária, depois não deu porque o dinheiro foi para estradas à maneira e obras de fachada, etc.

Eu não preciso que me expliquem que a coisa não deu, mas que as pessoas sempre estiveram bem intencionadas e fizeram o seu melhor. Se não deu resultado, não servem, não faz sentido uma segunda hipótese, uma reciclagem. As pessoas não erram por mero descuido, a ponto de, na oportunidade seguinte, prevenidas, não errarem. Não! As pessoas erram por razões mais profundas e entranhadas: pelos modelos de orientação, pelas estratégias de planificação, por esquemas de pensamento. Que não mudam, nem os deles, políticos, nem os nossos, cidadãos comuns.

Contestamos o governo, pelo mal-estar social, e por ser um governo de direita. Pergunto-me: tivesse havido uma inversão de papéis, estivesse hoje António Seguro, ou Sócrates, a pagar os desacertos de Santana Lopes, seria a política do PS distinta daquela que é conduzida pelo PSD? Podemos sempre dizer que não há resposta concreta para um quadro hipotético, mas não há como esconder de nós próprios a ideia sempre repisada de que entre o PSD e o PS não há diferença substancial.

Contestamos a política do PSD não porque seja intrinsecamente desoladora, mas por ser de direita. Ouvimos os consolos de Seguro e Zorrinho, e achamos que do seu iluminismo de esquerda e dum mirífico banco de fomento virá a celebrada redenção. Pura ilusão. Ao contrário dum esquema mental arcaico, esquerda e direita não são qualificativos com sentido próprio, rigoroso, absoluto. E nem a esquerda é sempre boa para os trabalhadores, para o povo. A prática do PS aí está para o provar. Será o PS um partido de direita?

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