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Esperança (2)

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Esperança (2)

Ideias

2020-05-12 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

O medo é basicamente resultado da insegurança.
Temos medo do que nos pode prejudicar, sobretudo quando o perigo pode surgir de surpresa, como uma ameaça de danos graves, muitas vezes irreversíveis onde a morte é o limite.
Temos medo do desconhecido, do que não vemos ou não conseguimos prever. A noite sempre nos remeteu para um abrigo, porque não enxergamos. O terrorismo, o roubo, e as doenças infeciosas apavoram-nos porque atacam sem aviso e sem escolha das vítimas. Podemos ser nós.
Temos assim a justificação dada à nossa segurança. O Homem juntou-se em comunidades e dali se organizaram defesas contra as hostilidades alheias, escolhendo ou aceitando lideranças, que lhe impunham deveres que condicionavam as suas vontades, direitos e liberdades individuais.

O medo e o alarmismo transmitem-se como as pandemias. De repente todos ficam assustados e gritamos por defesas. A ansiedade a emoção aleados a uma certa ignorância baixam a avaliação na aceitação do que os lideres decidem, que variam de povo para povo em conformidade com a sua estrutura social alicerçada na cultura, princípios e valores que adotam. A cultura, “lato sensu”, distingue comportamentos, sendo visíveis as diferenças na aceitação de regras entres povos que viveram, ou vivem, sob domínios de liderança forte, bastante afastadas do que hoje aceitamos com democráticas. Uns obedecem por receio, outros por respeito e entendimento do que lhes é dito como bom para si e para a sua comunidade.

É importante então que saibamos entender e respeitar instruções de nos dão os nossos lideres. É importante que estes se guiem por leis e respeitem valores e princípios éticos.
É importante que todos pensem e avaliem oportunidades e riscos de muitas das medidas que se tomam em situações de stress coletivo onde o medo impera, como os que hoje vivemos.
Vejo com apreensão a facilidade com que se aceita a adoção das vantagens que a tecnologia nos traz. O uso descuidado de informação que nos chega sem sabermos de quem e com que intenções. A aceitação do visto e lido na superficialidade do “post” como verdade. A valorização ou condenação dos exemplos dos outros, sem distinção de culturas, povos, regimes de governança e veracidade da informação. Tenho receio do mau uso da informação e do manuseamento de dados, sejam imagens, relatos ou opiniões. Receio as garantias de segurança que se dão sem clarificação e reconhecimento idóneo de quem e como se controla o seu cumprimento. Desconfio das promessas feitas de melhoria e benefício de todos, quando nos dizem que é preciso servirem-se de nós, pondo em causa direitos e liberdades, mesmo quando nos dizem que a adesão é voluntária e a saída livre. As redes sociais, a georreferenciação ou localização e a vigilância absoluta, são avanços tecnológicos que nos são servidas como alimento de socialização e meio de segurança, mas que se podem tornar armas de ameaça no futuro. Compreende-se e reconhece-se as vantagens da vigilância do espaço público, porque pode-nos ajudar a encontrar os verdadeiros autores, desde que essa vigilância seja atribuído às autoridades legais indicadas, mas a generalização abusiva da vigilância, mesmo que consentida é risco.

Tenho medo do futuro já visível. Assusta-me a rapidez de ação no nosso sistema de economia capitalista, onde uma aplicação como a “Zoom” de repente fica com uma capitalização bolsista superior a várias companhias de aviação europeia juntas. Que sustentabilidade económica tem esta economia de casino. Em contrapartida aumentam aos milhões os pobres a necessitar de ajuda. Não há valorização que chegue aqui.
A Humanidade continua a aumentar em número. É justo que todos procurem melhores condições de vida que necessariamente exigem mais recursos. Mais. Sempre mais, sem visão de limites.
O sistema capitalista é um modelo vencedor mas tem que ser restruturado. As suas fragilidades são visíveis à medida que todos vão conhecendo o mundo que lhes chega porque viajam, ou pela televisão, sendo particularmente notadas em tempos de crise.

Tal como a Democracia que olha demasiado para o curto prazo, na economia dos tempos de hoje querem-se resultados económicos imediatos. Preia-se o que se apura ao momento e goza-se logo os proventos obtidos, porque também eles alimentam o modelo. Basta olhar para a TAP ou para os Bancos. Depois pedem apoio ao Estado, que somos todos nós.
A finança é ainda mais rápida, projeta o futuro e vende-o no presente. As expetativas transformam-se de imediato em valor e com isso construem a riqueza invisível. Vivemos hoje da riqueza que prometemos criar no futuro. Só que o futuro nem sempre é tão previsível. De repente, um vírus, um ser que nem “como vivo” o consideram cientificamente, coloca tudo em causa. O curto prazo criador transforma-se no curto prazo destruidor. Como um jogo de lego as estruturas da economia moderna tombam e a riqueza supostamente existente esfuma-se sem sabermos para onde. Os menos atentos, os mais jovens e os que nunca souberam o que significa “sobrar e poupar” veem-se perdidos. A maioria vira-se para o Estado, como se esta fosse uma entidade que cria a riqueza e que tem o poder bíblico “da multiplicação do pão”.
Coitados dos frágeis!

Mesmo com medo, não resistimos à falta de liberdade, à ausência do contacto social, á materialização do uso de bens e recursos que nos sustentam. As nuvens do medo abrem brechas e voltamos a acreditar no regresso à normalidade.
A memória costuma ser curta. Esqueceremos os milhares de mortos, os milhões de desempregados, as dificuldades de quem apostou no futuro empenhando riquezas que não tinha, porque acreditava em si e no futuro. Afogaremos mágoas no futebol e no mal dizer dos outros. Nem todos. Alguns acreditam que o Homem aprende com as experiências marcantes. Essa é também a minha esperança. Acredito que saberemos pensar mais no futuro e procuraremos soluções de longo prazo a bem de todos.
Acreditem, mas tome cautelas.

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