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Esperança (1)

A Biblioteca Escolar – Um contributo fundamental para ler o mundo

Esperança (1)

Escreve quem sabe

2020-04-14 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

“Depois da tempestade, vem a bonança.”
Este ditado popular tem o poder da afirmação que a experiência humana de milénios permite aceitar como verdade. Sabemos porém que não se aplicará a tudo, nem a todos.
Perante desastres e catástrofes que surpreendem a Humanidade somos confrontados com a nossa pequenez a vários níveis, constatação que nos faz voltar para aqueles que consideramos superiores (incluindo o Divino) ou detenham recursos, meios e poder para nos ajudarem a superar infortúnios.

Vivemos num mundo global dividido por Estados soberanos. É para os seus máximos dirigentes que apelamos o auxílio material. É pois nestes momentos que nos é dada a grande oportunidade de avaliar melhor quem somos como país, como nação, como cidadãos e família, diria mesmo como civilização.

Nunca a humanidade se viu confrontada com uma catástrofe global que abraça todos em tão pouco tempo. Todavia, mesmo perante uma pandemia que não escolhe pessoas nem lugares nos tornamos iguais. Jamais se deixarão de se notar as diferenças entre povos e regiões. Entre a sua riqueza, educação, cultura, sabedoria e organização social e política. Facilmente distinguiremos quem tem mais recursos e meios, mas também quem deles melhor uso faz o seu contrário. Devemos questionarmo-nos sobre as razões dessa diferenciação. Não é o acaso que dita o sucesso, mas o esforço das suas gentes e a clarividência dos seus dirigentes.

“Cada um tem o que merece”. Poderia ser outro ditado popular que nos daria resposta, mas as explicações das razões dos resultados das sociedades dependem de muitos fatores, muitos dos quais nos remetem para passados longínquos que nos distinguiram porque se optou por esta ou aquela organização socio politica, que não foi indiferente aos princípios e valores que adotaram.
Nem a todos foi dada a oportunidade para escolher, mas a muitos foi dada a oportunidade de construir e de apoiar os líderes que tiveram e têm. A desigualdade será sempre um elemento constante no Mundo, mas tem que ser vista como fator positivo que nos faz evoluir e apreciar o outro. Não pode servir de desculpa e razão da fatalidade permanente.

O Homem procurou sempre o melhor para si. Procuraram os melhores locais de sobrevivência. Organizaram-se para melhor se protegerem e aproveitarem as vantagens da ação em conjunto. Fortificaram laços sociais, começando pelos mais próximos, a família. Os povos souberam aprender utilizando a experiencia do vivido para a transformar em saber e esta em sabedoria, transformando práticas em princípios, justificações em valores. Fizeram-se escolhas. Somos diferentes.

Esta paragem forçada em casa, também aqui desigual na abrangência, contudo semelhante para uma grande maioria dos cidadãos, pode-nos ajudar a refletir sobre quem somos como pessoa, como cidadão e povo. Refletir sobre o passado e as razões porque aqui chegamos. Procurar respostas e responsabilidades que também caberão a cada um de nós e à nossa comunidade organizada. A avaliação do passado no momento presente ajudar-nos-á a olhar para a frente e a procurar soluções melhores no futuro.

“Nada será como dantes”, é uma frase citada hoje amiúde como verdade. Sempre assim foi. Nunca o passado foi igual ao presente, nem o será no futuro. Estamos hoje melhor que no passado. Acredito que este sentido de evolução continuará a verificar-se. Nunca a Humanidade viveu globalmente tão bem, com tanta gente afastada da miséria da fome, apesar de não a conseguirmos eliminar. Porém tenho consciência que há momentos de retrocesso na Humanidade. O progresso não se fez, nem fará, de forma linear, antes com altos e baixos, dando razão á frase inicial, que também deve ser lida em sentido inverso. Não tenho dúvidas que muitos de nós viverão já o amanhã de forma mais dura. Mas se não tiverem a esperança de melhores dias ser-lhe-á muito mais difícil superar as adversidades.

É com esta esperança e no acreditar na mudança para melhor que deixo alguma reflexão pessoal que darei melhor nota nos artigos seguintes, a saber:
Não troco a liberdade pela segurança, mas acredito na organização social com predomínio da Lei, assente em valores e princípios que fazem de nós um povo.
Não acredito na liberdade como dogma e sem limites, porque também sei que o Homem age primeiro em seu proveito, nem sempre dando oportunidade aos outros.

Acredito nos princípios que sustentam a ciência, mas não quero que esta me subsitua sentimentos, sonhos, credos e dúvidas pois são eles que alimentam o progresso do saber e a busca de uma humanidade melhor.
Acredito na diferença entre Homens e suas circunstâncias, mas não aceito o domínio dos mais fortes. Essa é a lei da selva que abandonamos há milénios, apesar de revisitada amiúde em guerras que apenas visam a conquista do poder.
Defendo o mérito e a sua evidência, mas não aceito prémios retributivos desmesurados que não sejam os de louvor e agradecimento.

Não acredito em super-homens nem iluminados, mas dou valor ao saber e sabedoria, que muitos fazem com estudo, empenho, educação e no aproveitar de oportunidades.
Defendo a mudança sistemática na busca de alternativas, sejam elas sociais, politicas ou de riqueza. Sou contrário a roturas e revoluções, porque só as concebo porque não se deu importância a momentos de crise nem hipóteses para fazer a mudança, reformando.

Acredito no valor da partilha e no mérito que a socialização entre pessoas traz à civilização, baseadas na escolha livre e na oportunidade que o conhecimento permite transmitir a gerações atuais e futuras, sustentadas na cultura e nos seus valores.
Aceito a vantagem da organização política cuja autoridade permita ajustar diferenças, acautelar desvios, proporcionar oportunidades a todos, mas não quero autoritarismos sem tempo, nem paternalismos que apenas protegem quem mais tem, muito menos o confisco arbitrário da riqueza.

Desejo a todos saúde e força para retomarmos a ação por uma vida que saibamos aproveitar melhor em conjunto, porque sós e isolados valemos muito menos.

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