Correio do Minho

Braga, terça-feira

Escutismo ou Escotismo

Diciembre, Decembro, Abendua... e Desembre?

Escreve quem sabe

2016-09-02 às 06h00

Carlos Alberto Pereira

Durante o verão fui várias vezes abordado sobre a forma correta de escrever algumas palavras utilizadas no movimento criado por Baden-Powell, na língua portuguesa, designadamente: escutismo/escotismo, escuteiro/ escoteiro, escutista/escotista. É verdade, que esta questão teve momentos de debates acalorados, há alguns anos, em Portugal, mas, hoje, é uma questão perfeitamente resolvida, uma vez que a língua portuguesa integrou os novos vocábulos e aos anteriormente existentes atribuiu-lhes novos significados, no âmbito da semântica deste movimento.

Assim sendo, nos dias de hoje, estes pares de vocábulos, para além de serem sinónimos, apresentam uma gráfica correta.
Nos dias de hoje, temos a Comunidade do Escutismo Lusófono (CEL), fundada em 1995, constituída pelas nove associações escutistas de língua oficial portuguesa:
• AEA - Associação de Escuteiros de Angola
• AECV - Associação dos Escuteiros de Cabo Verde
• AESTP - Associação de Escuteiros de São Tomé e Príncipe
• CNE - Corpo Nacional de Escutas da Guiné-Bissau
• LEMO - Liga dos Escuteiros de Moçambique
• UEB - União dos Escoteiros do Brasil
• UNE-TL - União Nacional dos Escuteiros de Timor Leste
• AEP - Associação de Escoteiros de Portugal
• CNE - Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português

Usam a grafia com “o” a União dos Escoteiros do Brasil e a Associação de Escoteiros de Portugal, as duas mais antigas e as restantes usam a grafia com “u”. A AEP e o CNE, constituíram, em junho de 1982, para efeitos de representação internacional, uma federação cujos estatutos explicitam as duas formas ortográficas, no seu artigo 1º: «A Federação tem a designação de Federação Escutista de Portugal, ou Federação Escotista de Portugal e tem a sua sede, provisoriamente, em Lisboa, na Travessa das Galeotas, número um.». Neste sentido, qualquer pessoa pode utilizar a grafia que desejar, contudo verifica-se que os membros de cada associação optam pela grafia usada nos estatutos das suas associações de origem1.

É o tenente Weaver que em 1909 publica, na revista Ilustração Brasileira do Rio de Janeiro, uma reportagem sob o título “Scouts e a Arte de Scrutar”, (verbo escrutar, do latim scrutare) e em 1910 o Escutismo chega ao Rio de Janeiro, tendo sido criado o Centro de Boys Scouts do Brasil. Só em 1914, aquando da Fundação Brasileira de Escoteiros, em São Paulo é que se adota, oficialmente, neste movimento os vocábulos “escoteiro” e “escotismo”.

Em Portugal a Associação dos Escoteiros de Portugal, criada em 6 de setembro de 1913, “por convergência dos Grupos nº. 1, 2, e 3”2 adota de imediato os termos “escoteiro”3 e “escotismo”4, já existentes na língua portuguesa, estes Grupos usavam, até então, a palavra inglesa “scouts”.

O Corpo Nacional de Escutas, fundado a 27 de maio de 1923, com a designação de Corpo de Scouts Católicos Portugueses, tendo em 1925 passado designar-se Corpo Nacional de Scouts e só em 1934, substituiu o vocábulo inglês por um português “Escuta”5, após um longo debate iniciado em 19296, sendo certo que no primeiro número da “Flor de Lis”, publicada em fevereiro de 1925, já os vocábulos “escuteiro” e “escutismo”7 eram usados neste órgão oficial da associação.

Estas três associações de língua portuguesa tiveram a preocupação de escolher uma terminologia baseada na língua materna, tendo prestado, também neste aspeto, um contributo para o enriquecimento da língua, dando ainda mais força e universalidade à célebre expressão de Fernando Pessoa: “a minha pátria é a língua portuguesa”.

1-O autor, por ser membro do Corpo Nacional de Escutas, adota sempre a grafia utilizada nesta associação.
2-Eduardo Ribeiro, “História dos Escoteiros de Portugal”, Aliança Nacional das ACM de Portugal, Lisboa, 1982, p41.
3-Machado, José Pedro, Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa”, 3ª edição, II volume, Livros Horizonte, p.448 (palavra do Séc. XVI).
4-ibidem (palavra do Séc. IX, XIV e IXX).
5-ibidem, p. 452 (palavra do Séc. XV).
6-Salgado, Padre Benjamim, Radiosa Floração, Edições da Junta Central do C.N.E., Braga, 1948, pp 48 e 88.
7-ibidem (palavra do Séc. XX).

Deixa o teu comentário

Últimas Escreve quem sabe

11 Dezembro 2018

O conceito de Natal

10 Dezembro 2018

Como sonhar um negócio

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.