Correio do Minho

Braga, terça-feira

Escolhas, riscos e carreiras

Dar banho às virgens

Ideias

2014-05-23 às 06h00

Margarida Proença

Algumas das questões que me têm surpreendido nas funções que venho desempenhando nos últimos anos têm a ver com a percentagem relativamente baixa de mulheres que se candidatam a cargos de responsabilidade elevada na administração pública, mas também com a baixa percentagem de candidaturas de fora de Lisboa. As explicações ou melhor dizendo as tentativas de explicação, são obviamente de natureza diferente, mas em qualquer dos casos merecem uma reflexão.
A posição das mulheres no mercado de trabalho tem sido de facto já muito discutida; há histórias para quase todos os gostos. Alguns argumentam que a discriminação (homens e mulheres com idêntica produtividade média ganham salários diferentes) se deve a preconceitos por parte dos empregadores ou a informação imperfeita e cada uma destas abordagens originou uma longa série de artigos e áreas de investigação, no fundo procurando sempre explicar porque é que o diferencial se mantém de forma tão persistente, e porque tende a alargar ao longo da carreira profissional, apesar de legislação e políticas públicas orientadas para a igualdade de oportunidades. Mas não é a questão salarial que importa aqui.
Uma literatura relevante tem abordado a forma como cada um imagina a sua carreira e o que faz para o conseguir. Não se trata aqui do imaginário infantil, mas da previsão mais ou menos objetiva do que se pode ser realizável. Uma das abordagens da psicologia, na linha de Albert Bandura, chama a atenção para aquilo a que chama de “determinismo recíproco” - ou seja, o comportamento é controlado pelo indivíduo através de processos cognitivos, condicionado pela estimativa que faz das consequências que cada decisão sua pode gerar, mas ao mesmo tempo atua no ambiente social e dessa forma ajuda a definir, a desenhar, esse mesmo ambiente que o condicionou. É um pouco o “colheste o que semeaste” ou outros ditados do mesmo género, que aliás existem nas mais diversas línguas, como um artigo recente de Kaiser também refere. Bandura fala da noção de eficácia que cada um formula a seu propósito como sendo crença individual sobre a capacidade para desempenhar com sucesso uma determinada tarefa. Nestes termos é um fator pessoal, condicionado por características pessoais de natureza cognitiva, afetiva, social ou mesmo biológica. Lendo em termos do mercado de trabalho, esta abordagem reflete uma interação dinâmica e recíproca entre características pessoais (emoções, expetativas, crenças, medos, etc.), o comportamento individual (ações, decisões, qualificaçõ-es) e o ambiente social. O trajeto profissional individual interage também por esta via com as oportunidades profissionais de promoção.
De certa forma, relacionando-se com esta abordagem, tem sido argumentado e mesmo comprovado em estudos experimentais, que as mulheres são menos competitivas que os homens, melhor dizendo, estão menos abertas a entrar em torneios, concursos ou desafios, utilizando os seus potenciais de carreira abaixo do que seria desejável e ótimo. Em qualquer dos casos, existe uma perda do ponto de vista do capital social.
É curioso que parte destes argumentos poderiam ser utilizados para tentar explicar porque se candidatam tão poucas personalidades de fora de Lisboa a cargos do topo da administração pública.

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