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Escola Silenciosa

Voz às Escolas

2021-03-18 às 06h00

Ana Maria Silva Ana Maria Silva

As ruas estão desertas e a erva cresce por entre os paralelos mais do que habitualmente. A própria rua tem uma cor diferente. Mas o mais estranho é o silêncio. A escola está lá, altiva, mas sem o barulho que a caracteriza. Faltam aqueles que são a sua razão de existir, os alunos.
Este silêncio recordou-me um excerto de um livro que li há alguns anos atrás. O texto falava de uma cidade que ficava no meio de um espaço verdejante. Na primavera tudo florescia e os pássaros chilreavam. Tudo era agradável aos olhos e mesmo no inverno os pássaros surgiam para se alimentar das sementes e das bagas selvagens. A cidade era famosa pela abundância e diversidade da sua fauna e flora e eram muitos os visitantes que a ela acorriam para se deliciarem com a sua beleza.
Mas algo aconteceu que alterou toda a vida da cidade. Um mal desconhecido tinha surgido e tudo estava a modificar-se. Doenças estranhas atacavam as pessoas e a natureza. Em todo o lado se sentia o espetro da morte. Havia um silêncio estranho. Os pássaros tinham desaparecido. As pessoas falavam deles, mas tudo estava deserto. Era uma primavera sem vozes. As manhãs, outrora repletas do chilreado, estavam agora sem qualquer som: só o silêncio reinava por todo o lado. As bermas da estrada, dantes tão atrativas agora estavam negras, como se tivessem sido consumidas pelo fogo. Mas afinal não era nenhum feitiço, como inicialmente os seus habitantes tinham pensado. Tinham sidos as pessoas e as suas ações a causar toda esta enfermidade.
Estou a falar do livro “A Primavera Silenciosa” de Rachel Carson. Mas o que tem este livro a ver com a escola? A Martins Sarmento também está localizada no meio de um espaço verdejante. Tudo à sua volta é tranquilo e a paleta de cores que a rodeia vai-se alterando de acordo com a passagem das estações. Os pássaros também estão por todo o lado, mas a vida que a caracteriza está ausente. Faltam as suas personagens principais e que lhe dão vida. Como podemos ser uma escola sem alunos e sem professores? Salas vazias, corredores vazios, espaços exteriores vazios. Os risos, os sussurros, para onde foram? Há um silêncio estranho!
Sabemos que os professores estão a trabalhar com os alunos. Mas que estranha forma de ser professor. Nós sabemos que se alteraram os meios de ensinar, e por isso os constrangimentos com que diariamente nos confrontamos continuam a existir, mas agora tudo tem de ser resolvido a distância. Será que tomaram o pequeno- almoço? E, se sentirem mal, quem os pode ajudar? Será que estão a perceber o que estamos a trabalhar? Eles dizem que sim, mas nós pressentimos que alguns alunos desconhecem os assuntos que estamos a tratar.
Sabemos que a escola é um local seguro, onde todos trabalham para que a tarefa de aprender seja uma realidade. Por isso não podemos ficar indiferentes àqueles que, em casa, não conseguem aprender. Assistentes e professores estão na escola a recebê-los e a criar as condições para que, mesmo em confinamento, eles a possam frequentar. O mesmo é verdade para os professores. Todos os que preferem trabalhar na escola têm a possibilidade de o fazer. Esta estranha forma de ser escola, consegue, assim, ir ao encontro das diferentes necessidades e daqueles que aprendem de forma diferente. E, neste momento, todos estamos a aprender de forma diferente.
O desafio que se nos coloca prende-se com a utilização das tecnologias digitais e dos ambientes virtuais de aprendizagem. Nós sabemos para onde queremos ir, mas nem todos os caminhos nos conduzem ao nosso destino. É preciso fazer escolhas e ajustes permanentes.
E a ESMS está nesse processo de aprendizagem permanente. Gostaria de afirmar que, gradualmente, se está a transformar “numa comunidade de aprendizagem” em que professores, alunos, pais e assistentes, desbravam os caminhos da incerteza na busca das melhores estratégias pedagógicas para que a escola continue a assegurar um serviço educativo que possibilita o desenvolvimento pleno dos seus alunos. Mesmo nesta escola silenciosa!

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