Correio do Minho

Braga,

Erro de paralaxe

Amigos não são amiguinhos

Conta o Leitor

2013-09-10 às 06h00

Escritor

António Ribeiro

Encontramo-nos na mesma estrada que nos afasta de onde somos. Diariamente. Ou quase. Não te notei nos primeiros dias. Contudo, da frequência veio-me a atenção à pose. Previsível, mesmo para quem não gosta de vidas com rótulo.
Naqueles primeiros tempos via-te quando na minha jornada findava a manhã. Eu regressava a casa pausando o trabalho de um dia habitualmente longo. Adivinhava-te ao longe, caminhando de lá para cá, sem grandes desvios do pequeno caminho de terra que penetra nos matos. Onde nunca te vi entrar.

Na volta continuavas na mesma margem. Oposta à minha. Umas vezes parada, outras caminhando. Impaciente, quiçá, pela indiferença dos que não abrandavam a marcha. Obrigavas os teus pés a deslocarem-se, talvez para enganares o fatalismo de uma vida moribunda, como se quisesses demonstrar a soberania da tua vontade. Ou, quem sabe, somente pela necessidade de burlares o frio desses dias do inverno prolongado. Num permanente conflito entre a necessidade de expor um corpo desmerecedor de pública exibição e o merecimento do conforto dos exigíveis agasalhos. NÃO HÁ VIDA SEM CALOR!

Nunca tive oportunidade de te olhar mais atentamente além dos escassos segundos balizados pela velocidade da minha viagem. Muitas vezes estavas lá e eu não te via. Absorto na rotina dos dias, repetindo-me nas horas e nos caminhos. Passava por ti e reduzia-te a uma silhueta que se indefinia no retrovisor.

Seguia a minha marcha e procurava afastar moralismos comuns. Porém, a tua presença feria-me e não conseguia aliviar o peso de uma tradição que, insidiosamente, me lembrava muitas das etiquetas usadas para mulheres como tu. Perdida. Puta. Uma palavra somente. Porém, definitiva, como se fosse possível reduzir uma vida numa palavra. Esquecendo-me da outra perdida que mereceu o olhar divino. Também mulher. Maria Madalena. Sabias?

Muitas vezes, na tarde, a tua imagem intercalava-se entre o trabalho que proibia faltas de concentração e o apelo a reflexões menos imediatas. Como seria a tua tarde? Cansada talvez dessas caminhadas que não te afastavam desse ponto que te fazia prisioneira... Esgotada na espera dos que te ignoravam... Ou que apenas se detinham para te humilhar, menosprezando esse corpo oferecido. Envelhecido antes de tempo, desvalorizado pela concorrência. Como eram as tuas noites?

Numa delas vi-te numa das praças da cidade. No imediato fiquei surpreso. Não te imaginava fora da margem da estrada. Segui-te com o olhar, procurando inscrever-te nesse espaço nobre, onde pulsa o coração da civitas. Onde se encontram as famílias no final das amenas tardes de primavera, trazendo pela mão as crianças que irão distribuir migalhas às pombas que em bandos reclamam alimento. Na mesma praça a que chamam sala de visitas.

Onde se festejou a capital europeia de cultura. Onde discursam os políticos que dizem governar a cidade. Essa mesma praça por onde caminhavas em passo seguro, sem a inflexão de marcha que me era familiar. Tinhas a cabeça levantada, olhavas em frente sem aqueles óculos escuros e desmesurados que, talvez, somente sirvam para indefinir um rosto que não queres reconhecido. Nesta praça. Ou noutras praças onde não olhem na mulher da margem da estrada.
Eras outra. E, no entanto, nessa noite serias provavelmente tu. Não a outra. A verdadeira.
Quid est veritas?

Perdi-te quando, ao longe, entraste na rua que conduz ao centro histórico da cidade. Nesse lugar onde se encontram os mais jovens, enganosamente desinibidos nos álcoois que revigoram mentes precocemente amolecidas, alimentando diálogos impossíveis na cacofonia dos sons violentados pelo volume exagerado da música ambiente dos bares onde acontecem desencontros. Nas esplanadas onde se engana a escuridão da noite, olhando lá no alto da montanha o santuário de exterior iluminado. Porque o interior não o vês. Tão-pouco eu. Daqui. Nem da praça onde estarás. Para alcançar a luz interior é preciso transpor a porta; não temer o que se desconhece.

Imagino-te nessa praça. Da Oliveira. A árvore símbolo de paz. Como as pombas da praça que abandonaste. Não deixo de me surpreender com a inusitada ocorrência. Fazes o trânsito entre lugares nomeados pelo simbolismo de um mundo fraterno. Sempre desejado e escassamente atingido.
Imagino-te onde provavelmente te reencontras. Ou que será apenas o meu desejo, inconscientemente assumido como expiação da minha soberba. Quando te cataloguei. Desmentindo o que afirmo professar.

Perdi-te no progressivo definhar da tua figura nesse final de praça. Na estrada secundária era eu que me distanciava, sem te conceder a atenção; na praça nobre és tu que te retiras, sem me quereres saber. Conforto-me com essa última imagem de quem desmentia a canção.
«Amélia apresentava todos os sintomas de quem se dirige
Ao lado errado da noite.»

Nestes dias de brasa vemo-nos mais cedo. Quando a manhã já vai desperta e o sol inicia mais um ciclo neste verão de fogo, desencontro-te no mesmo lugar. Igual ao primeiro dia. Na economia de traje. Conforme ao calendário e à função. Obrigatório, pensarás.
Porém, continuas na mesma ausência em que sempre te reconheço. Exibindo o insucesso de uma vida que te exila numa margem de estrada. Secundária. Olhando os carros que acentuam a falência de um corpo que não faz abrandar a marcha. Que apenas impressiona pelas marcas de usos passados. Ou de abusos presentes.

Revelo-me incapaz de coincidir os retratos com que te descrevo. Inabilitado na busca das palavras onde te possa conter. Preconceituoso no olhar em que te procuro fixar. Incapaz de aceitar que és única. Na margem da estrada secundária e na praça nobre da cidade.
Só nos encontramos na mesma estrada que nos afasta de onde somos. De lugares onde nunca nos conheceremos. No mesmo erro de paralaxe das nossas vidas.

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