Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Erro de casting? Não, erro do governo

‘O que a Europa faz por si’

Ideias Políticas

2016-11-15 às 06h00

Hugo Soares

Se há palavra que sintetiza a atitude de António Costa e do governo em relação ao que se está a passar com a Caixa Geral de Depósitos, essa palavra é desrespeito. Desrespeito pelos portugueses, desrespeito pela instituição CGD, desrespeito pelos partidos políticos e pelo Presidente da República, desrespeito pelo Tribunal Constitucional, desrespeito pelas mais elementares regras de transparência democrática e desrespeito, inclusive, pelo próprio António Domingues e sua equipa. No fim, desrespeito pela sua própria palavra (a tal que, quando era dada, era palavra honrada). Temos que convir que é muito desrespeito junto.

O vergonhoso caso da Caixa provocado pela incompetência e inépcia da dupla Costa & Centeno é paradigmático do modus operandi deste governo socialista. Uma forma de agir que se caracteriza pela absoluta falta de transparência, pelo desprezo pelo rigor, pelo excesso de arrogância e de suficiência, pela suprema irresponsabilidade e leviandade. Desconheço se, por esta altura, António Costa ainda julga que vai conseguir sair incólume deste monumental imbróglio com o seu sorriso ‘blasé’ e o desavergonhado encolher de ombros, a que já nos habituou. Se julga que sim, está muito enganado. É absolutamente insustentável esperar que a situação se resolva por si só e que depois cada um siga a sua vida normalmente, como se nada se tivesse passado. A Caixa Geral de Depósitos é importante demais para o País para estar entregue a quem não demonstra ter um pingo de respeito por ela.

Ouvir António Costa falar sobre a CGD é tão vergonhoso como repugnante. A forma leviana, cínica e até hipócrita como diz que a obrigação de entregar a declaração de rendimentos e património por parte da administração deve ser aferida pelo Tribunal Constitucional quando foi o próprio António Costa que mudou a lei para criar esta confusão é reveladora do mais miserável sentido de Estado. O governo desenhou um fato à medida para a nova equipa, aceitou todas as condições impostas por esta, vendeu-a ao País como se fosse a “última Coca-Cola do deserto”, tentou que toda esta obscura negociação passasse ao lado do escrutínio público. E agora, como se se tratasse de um mero e remediável erro de casting, António Costa já admite a saída desta administração. Shame on you...

Já Mário Centeno aceita para si próprio o papel de “idiota útil” do governo, ao mesmo tempo que se considera protegido, nas suas sucessivas e crescentes asneiras, por uma espécie de inimputabilidade. A admissão de que a não entrega da declaração de rendimentos por parte da nova administração “não foi um lapso” é a prova cristalina de que tudo foi combinado e acertado para ser mesmo assim. Só não esperava que a coisa desse raia. Claro que só podia dar. Hoje, impunha-se uma acareação entre o primeiro-ministro e o ministro das Finanças. E com António Domingues, já agora. Seria fundamental para ficarmos todos a saber quem é que está a faltar à verdade e a faltar à palavra dada. Eu cá tenho as minhas suspeitas…

O Partido Socialista, por sua vez, mostra como está de cabeça perdida, disparando em todas as direções, dizendo uns uma coisa e outros o seu contrário. A questão é, de facto, tão gritantemente incómoda para o PS que parece que a única solução é criar ruído e confusão, numa absurda e tonta fuga para a frente.

A Caixa Geral de Depósitos vive há demasiado tempo este enxovalho que o próprio governo causou e que não dá mostras de querer ou conseguir estancar. É uma situação inadmissível, com custos de reputação gravíssimos. É tremendamente injusto e incompreensível que uma das instituições que mais pode levar o País para a frente esteja a ser levada para o fundo por quem devia ser o primeiro interessado em defendê-la. Quando se devia estar a discutir a recapitalização, está-se a discutir o que nem devia ter discussão. O País não pode aguentar por mais tempo o mal que estão a fazer à Caixa. O País está a uma só voz a pedir respeito pela Caixa. António Costa e Mário Centeno não podem, simplesmente, saírem-se bem de tudo isto. Não podem.

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