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Escreve quem sabe

2021-01-03 às 06h00

Cristina Fontes Cristina Fontes

Comunicar em português escorreito é uma mais-valia na vida social e profissional. Porém, por destacar erros alheios, muitos me perguntam se não tenho receio de atrair sobre mim as atenções daqueles que me querem apanhar a errar. A resposta curta é não.
Sei que erro, não gosto de o fa-zer e chego a ficar envergonhada quando o faço. Todavia, sou a pri-meira a admitir o erro e a procurar corrigi-lo rapidamente. Para tal, estudo, leio e procuro ajuda de especialistas. Não há frase ou texto que não reveja e, mesmo assim, há erros que passam. As dúvidas ortográficas resolvem-se facilmente com recurso a dicionários e a prontuários, mas há sempre hesitações no que respeita à sintaxe, à coesão textual, à coesão ou à legibilidade da mensagem.
Muitos alunos perguntam qual a razão de aprender gramática. A resposta mais sábia deu-a José Cardoso Pires: “para escrever bem a primeira condição é saber gramática; a segunda é esquecê-la”. De facto, ao sabermos identificar um verbo, um complemento direto, um modificador, uma oração subordinada, mais facilmente sabemos pontuar uma frase e tornar a escrita mais inteligível. A gramática dilui-se na escrita.
Há bem pouco tempo, discutia com alguns alunos essa necessidade de conhecer as regras gramaticais. Eles argumentavam que Saramago (estão a ler O Memorial do Convento) não as respeita, sobretudo no que concerne à pontuação. Fui novamente ao baú das citações e discutimos o sentido desta frase de Bernardo Soares: “Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões.” Deu pano para mangas. Falamos da norma padrão, o registo mais neutro, uma espécie de modelo da língua, que devemos conhecer para podermos comunicar com acuidade e correção. Depois falamos da fuga consciente ao normativismo e à estética literária.
António Lobo Antunes, um escritor maior da nossa língua erra e assume o erro. Aliás, zanga-se se o corrigem. Numa entrevista, chega a dizer que “(…), quando eram as crónicas, havia revisores que ajardinavam a prosa. Fiquei lixado. Que-ro que não me mexam numa síla-ba. E mudavam-me a pontuação e etc. Eu não admitia que me mudassem a pontuação. Tinha que ir assim. E com os livros é a mesma coisa.” (Em http://bit.ly/3rSVgP5, acedido em 01-01-2021). Na ortografia, Lobo Antunes tende a esquecer a norma e a “criar” palavras. Confesso que, às vezes, ia consultar o dicionário a meio de uma obra, pois a dúvida pairava e a leitura teimava em não fluir. Lembro-me de “escanifobético”. Soou-me mal, pois sempre ouvira e dissera “escaganifobético”. Mas era o Lobo Antunes. Afinal, estava eu certa, mas pen-sei que seria um erro de impressão até descobrir tantos outros erros nos seus escritos.
Por vezes, há pessoas que me apresentam frases de autores consagrados para contrapor aos exemplos que dou. Tento dizer-lhes que, apesar de serem de quem são, estão erradas. Vejamos a pertinente questão de José Mário Costa, fundador do portal Ciberdúvidas da Língua Portuguesa: “Qual é o papel de um escritor? É também preservar a sua língua. Se escreve *berguilha em vez de braguilha porque é que amanhã não haverá de escrever asa com z?”
Não defendo, porém, que a lín-gua portuguesa é imutável, pura e sagrada. Assumo o Acordo Ortográfico de 1990 como base da minha escrita. O calão e a gíria têm o seu espaço. Os emprés-timos são bem-vindos, mas com parcimónia. As pronúncias e os regionalismos são sinais identitários de uma região e não formas de menosprezo. A língua portuguesa não está aprisionada em Portugal.
Assim, meus amigos, continuarei a partilhar convosco esta página para desmitificar a frase-feita “A língua portuguesa é muito traiçoeira”. Não, não é. A língua portuguesa é História, Cultura e Saber.

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