Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Entre a meia noite... de Alexandra Santos

O que nos distingue

Conta o Leitor

2010-07-17 às 06h00

Escritor

Como uma nota solta, o meu sono voava na plenitude da música que essa tal nota emanava. Num salão de ouro e vermelho venoso, fazíamos uma prova de História da Arte. O suor que escorria das paredes, o cheiro a desassossego, tudo isto inquietava-nos o conhecimento da matéria. Afogamo-nos na água destilada e metemos as mãos aos bolsos no mesmo segundo. As fabulosas cábulas que expeliam sabedoria encontravam-se ali mesmo, nas nossas mãos…a oscilar, a cuspir as soluções para os nossos olhos hipnotizados.
Um professor, baixo, calvo, de óculos. Uma professora, magra e seca, alta e bruxa.
A-L-E-X-A-N-D-R-A-A-A-A-A-A!!!
Para além ter acrescentado ao meu nome mais uns cinco ases no fim, rebentou os meus tímpanos de susto. Mais rápida que a velocidade da luz, levantei-me, a cadeira caiu, corri ao encontro da porta dourada. Com o meu coração nas tuas mãos, seguiste-me. Já não havia o presente, já não havia oxigénio, deixei o subconsciente na sala. Havia somente um labirinto negro, vazio.
No corredor do claustro eclesiástico suou a pólvora; o que aguentava no peito foi atingido. As tuas costas. Tentei perdurar a corrida com toda a força que suportava, arrisquei dar mais um passo mas tu…tu cedeste, rodopiaste no chão frio e mórbido. Neste instante, quando o meu pescoço fez uma volta de 130º soa outro disparo. As minhas costas. O meu sangue quente inflamava o chão, a minha respiração voltou, os meus olhos encharcados gritavam por ti. O meu corpo estremecia, suplicava pelo teu. Rastejei até a ti, agarrei o teu pescoço, molhei o teu rosto com o cloreto de sódio que os meus olhos transcendiam: Vitor, eu amo-te. As tuas mãos enxaguaram o meu rosto e beijaste-me. Beijaste-me como nunca ninguém o fez, beijaste-me com raiva e saudade, beijaste-me como um adeus e um amo-te. Beijaste-me.
Os meus amigos amarraram-me pelos ombros, braços, mãos e levaram-me para longe de ti. Só de ter imaginado o teu corpo sozinho, seco, esperneei, berrei. Caí de queixo no chão, andei de gatas até a ti e abracei-te, abracei a tua alma fria, pânico. Voltei a gritar, suplicar o teu nome às paredes que me ouviam: Vitor, não me deixes sozinha.
Voltaram a amarrar-me mas queimei essa camisola de forças com o fogo que a minha alma expelia. A minha ferida sarou sozinha.

O teu corpo ainda la estava, deitei-me em posição fetal no mar de sangue e adormeci a embalar os teus cabelos…


Da Alexandra para a minha professora Rosário Borralheiro.

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