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Então feliz Natalzinho, sim?

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Então feliz Natalzinho, sim?

Voz aos Escritores

2020-12-18 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Há luzes a encantar o olhar, as músicas de sempre a tentar um regresso ao espírito da época. Há os doces a impedir a forma de se manter ou alcançar, uma viagem pelo paladar à infância, às mãos de carinho que outrora embalaram as travessuras ou os sonhos, que encheram espaços de pormenores festivos e as mesas de alegria.
Há um certo frenesim associado à época, com os preparativos e as prendas, talvez apenas um pouco menos este ano.
Mas não há os jantares de Natal com os diversos grupos de amigos que nos compõem a existência, nem os das empresas com as pessoas que nos aturam os dias. As partilhas tornam-se mais ocasionais e distanciadas. Ainda assim, os votos querem-se intensos e, mais ainda do que em qualquer outro ano, a saúde torna-se o primeiro na lista.
As famílias organizam-se em unidades indispensáveis e talvez devesse ser assim sempre, este sentido de prioridade e importância, uma espécie de missão de salvamento dos guardiões da memória. Uma dedicação com dedicatória implícita, uma afirmação perene no tempo. Neste tempo.
E ainda assim, no meio desta aridez inumana, onde somos testados na perseverança das nossas balanças e decisões, há lugar para gestos inesperados, pequenas atenções ou delicadezas, amparos na travessia pelas agruras que nos arranham a pele, uma e outra vez, até já não conseguirmos distinguir o que é são em nós. Ou nos outros.
E como em todos os caminhos e horizontes, há sempre trajetos que podemos escolher. Em última instância podemos ser o resultado rugoso e fissurado do caminho. Podemos também escolher ser o reflexo do horizonte que almejamos, aquela pincelada laranja ou amarelada de um entardecer de luz, cheio de promessas de amanhã, de um amanhã dourado e quente onde projetamos um tempo justo e puro, à medida do desejo de Sophia.
Neste tempo em que algumas famílias, por conta direta ou indireta deste vírus, por acertos diretos da vida a contas com a morte, vão estar amputadas de seres amados. Neste tempo em que algumas irão viver esta data pela última vez com todos a sujar os pratos e a deixar um beijo nos copos.
Porque somos todos a soma de pequenos instantes, de pequenas células num equilíbrio volátil, de pequenos gestos de altruísmo, de pequenos sentimentos de amor, se o amor puder ser pequeno e agregado e somado e edificado numa montanha imperecível, porque somos todos sedentos de afeto, talvez agora mais do que nunca, que possamos escolher ser rosto, ser vislumbre, ser luz.
Afinal, não é sobre isto esta quadra?
Ainda que a perspetiva nos antecipe uma diminuição das vivências natalícias, que possamos compensar em intensidade o que perdemos pelo caminho sobre o que ganhamos em prioridades.
Não vamos sair disto iguais, nem poderíamos. Seria necessário sermos indiferentes ao que se passa connosco e à nossa volta. O desejo pelo regresso ao normal é uma ilusão ou uma boia de salvamento emocional.
Mas pelo menos que saibamos escolher os horizontes que desejamos refletir, como as luzes que nos marejam os olhos cristalinos de saudades. Então poderemos dizer com a boca e o peito cheio: feliz Natal!

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