Correio do Minho

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Encruzilhada

Investir em obrigações: o que devo saber?

Ideias

2014-09-17 às 06h00

José Manuel Cruz

Não há crítica que não tenha sido feita ao governo de Passos Coelho que não encontre gémeo ou equivalente nas censuras que os franceses endereçam ao seu próprio governo - ao originário, e ao agora recauchutado. Com troika ou sem ela, com austeridade vivida ou pressentida, num e noutro lado se fala de endividamento, rentabilidade, pressão e saque fiscal.

Num e noutro lado se fala do esmagamento da classe média, da extensão da jornada de trabalho, de desemprego fraudulento, da necessidade de amplas reformas. Em França ainda não terá havido grandes cortes de pessoal na função pública, mas vê-se pais a queixarem-se de classes sobrelotadas e sem condições, queixas que outros estendem aos serviços de saúde. Aflora-se que poderá avançar uma reforma similar à revisão das freguesias processada em Portugal.

Longe vá a ousadia - a blasfémia, mesmo -, mas parece que entre um Portugal, que ainda não acordou totalmente do desastre de Alcácer Quibir, e uma França, que é potência nuclear, que toma assento no selecto clube G7, que decreta ou valida sanções a torto e a direito: enfim, que entre um e outra não há diferenças por aí além. Bom para nós? Deplorável para eles? História das Nações à parte, parece, ainda mais, que não há grandes distinções entre um exercício de poder à direita e à esquerda.

Recorro a palavras alheias. João Miguel Tavares - JMT -, que integra o painel do Governo Sombra, não se cansa de dizer que anseia por um partido de esquerda que, chamado a trabalhos, governe efectivamente à esquerda. Ele, que é assumidamente de direita. Duma direita esclarecida, por contraponto a uma direita cavernícola. Decorre das suas palavras, cristalinamente, que a esquerda é uma quimera, que há uma impossibilidade de facto de governar à esquerda. É claro que para JMT, e restringindo-me a Portugal, o PCP não entra nesta contabilidade - porque se crê que jamais regressará ao poder executivo: rigidez a mais!

Houve um tempo em que soubemos o que era a esquerda. A esquerda encarnava um certo controlo dos excessos dos empregadores e do capital. A esquerda acarretava expansão de serviços públicos, acréscimos salariais e regalias acessórias. A esquerda professava um projecto progressista de sociedade, sobrelevava a condição humana, a igualdade de direitos e oportunidades. As esquerdas seriam tolerantes e tendencialmente internacionalistas, por contraponto aos nacionalismos passadistas das direitas.

O século vinte estava a ponto de esgotar três partes quando Portugal entrou nas alegrias da discussão política e ideológica. Tivemos tantos partidos de esquerda quantas sugestões oferece a carta exigente de um restaurante consagrado com estrelas michelin. Grupelhos sectários, quase pessoais, boa parte deles; forças que foram perdendo elã à medida que o poder democrático se institucionalizava, e que se revelava mais vantajoso passar para o lado de dentro, do que ficar de fora a propagar a superioridade moral da classe operária.

Teoricamente tivemos sorte. Pela divina graça, o poder rolava entre socialistas e sociais-democratas: e haja quem diga que a social-democracia não tem uma costela distintiva de esquerda! Mesmo o petit ami, disponível para arranjos de conveniência, quanto se reclamasse de democrata-cristão não teria como iludir um fundamento programático ligado à defesa e promoção da dignidade da pessoa humana. Resumindo, tal como Salazar não teria sabido ser integralmente fascista, tão-pouco se encontrava no novo regime quem se identificasse seria e abertamente com os valores de direita.

Escolhidos nas urnas, a partir de plataformas eleitorais com sabor de esquerda e promessa fiel de boa governação em nome da vasta maioria, não houve executivo que não sacrificasse ideais e boas-vontades no altar do pragmatismo e da dura realidade. Porém, paradoxo dos paradoxos, quanto não se governasse em nome das indeclináveis contingências, mais àvida a realidade se revelava de novas concessões e sacrifícios.

Subjugados por uma realidade inelutável, simultaneamente anterior e superior a toda construção conceptual, chegamos ao ponto em que as grelhas ideológicas de base se tornaram irrelevantes. Pior, perniciosas. Constatou-se com gaúdio o fim dos dogmatismos - que eles sim, alienavam pessoas e estados. E chora-se, agora, a ausência de valores fundamentais de referência. É preciso clareza - suspira-se! E eu subscrevo.

Hollande e Valls, por um lado, Passos Coelho, por outro, governarão com o mesmo grau de repulsa e insatisfação dos seus concidadãos. Uns serão esclarecida e devotadamente socialistas, o outro terá esquecido a social-democracia em gaveta oposta àquela em que Soares em tempos arrumou o socialismo. Tanto ou mais que bem-estar, querem as pessoas ser governadas com clareza.

A nitidez dos princípios convive muito bem com as contingências da realidade. Se o eixo esquerda-direita não tem já qualquer significado ou aplicação no exercício político, não os terá nem para um nem para outro dos termos em presença. Assassinando a esquerda, assassina-se simultaneamente a direita. E abre-se caminho para algo de diferente. E depois é só fazer funcionar os mecanismos de contágio.

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