Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Encontro improvável

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2016-08-09 às 06h00

Escritor

Graça Santos

Teresa vivia, desde a algum tempo atrás, em permanente reflexão. A meia-idade a que chegou, acrescida da aposentação precoce e dos filhos criados, trouxeram-lhe tempo e liberdade para pensar. Pensou, pensou e nem gostou do que viu nem do sentiu sobre a sua vida conjugal. O marido, ainda fortemente (ou falsamente) ocupado na vida profissional deixava-a muito só, recusava-se a sair com a desculpa de que estava cansado, não a acompanhava nos programas que ela propunha, nunca tinha tempo para estar ou falar com ela, excepto ao jantar (e isto se a televisão não transmitisse um jogo importante de futebol - que era quase sempre, ou se o Telejornal não imperasse sobre as conversas do casal). O sono, ainda que juntos, era apressado, porque o dia seguinte começaria cedo. O fim de semana servia para pôr em dia atarefas adidas, fazer relatórios e planificações profissionais para a semana seguinte,…
Teresa sentia um vazio, um enorme descontentamento pela vida mediana e rotineira que vivia. Pessoalmente deu a volta. Ocupou-se com voluntariado infantil, apoios a familiares e amigos mais idosos ou menos autónomos em diversas vertentes como a saúde, a fiscalidade, as compras, … Foi para a Internet ligar-se ao mundo, leu mais e melhor, assistiu a programas culturais e informativos na TV, reencontrou-se com grupos de amigos, matriculou-se em universidade seniores em áreas desconhecidas, foi ver espectáculos de teatro, cinema, sessões culturais de entrada livre, viajou, … e distanciou-se cada vez mais do marido! Ao princípio ainda tentou combinar datas integradoras para saírem os dois, mas ele tinha sempre “imprevistos” ou só estava livre em época alta e no pouco tempo livre que tinha quase nunca apontava para destinos comuns aos dois. Então, Teresa, passou a viajar sozinha, integrada em grupos organizados, com breves programas de baixo custo. Quando regressava vinha cheia de alegria e experiências para partilhar com o marido. Eram as fotos dos novos lugares que conheceu, as comidas, os costumes, os contactos estabelecidos, … mas nada disso o interessava, antes a recriminava pelo abandono a que o botou no espaço da sua magra ausência!
E Teresa pensou. E levou algum tempo para perceber que já não fazia parte da vida do marido. Por mais que tentasse entrar nela, ele punha sempre obstáculos. Por mais que abrisse a sua, ele recusava-se a entrar. Então encheu-se de coragem e, calmamente, propôs-lhe uma separação amigável de modo a que não houvesse um mútuo impedimento de serem felizes, cada um por si, já que de vida em comum pouco ou nada tinham! E a resposta dele espantou-a: Não, não tinha nada contra ela, gostava muito de viver com ela, nunca pensou em separar-se, estava tudo muito bem, ela só tinha de se ocupar mais em casa, sair menos, … Da sua angústia de insatisfação e solidão nada entendeu ou quis entender! E Teresa recuou na intenção de se divorciar, porém azedou, embrenhou-se num mundo de sensações negras, de sentimentos contraditórios, culpabilizando-se pela insatisfação conjugal que sentia, pela falta de amizade e amor do marido, pela ausência de companheirismo, partilha de emoções, gostos, saberes-prazeres-seres comuns ao casal.
No meio de tal escuridão em que se sentia a viver com o inimigo, prisioneira do contrato estabelecido, com obrigações da sua parte e sem reconhecimento das falhas no contrato por parte da outra parte, pediu Luz. Ergueu o olhar à imensidão do céu, do mar, do espaço aberto dos vales e montanhas, respirou fundo e retomou a vida de paz e de realização pessoal na solidariedade, na busca de cultura, na comunhão com os outros, fora do casamento, já que no seu seio familiar restrito essas expressões salvíficas lhe estavam vedadas.
Desprendendo-se, quanto possível, do embuste que coarctava a sua liberdade de ser pessoa, Teresa viajou quanto pôde e foi numa dessas viagem que teve a seu lado um atleta de alta competição paralimpico, na modalidade de Boccia. Pedro, de seu nome, permaneceu no lugar contíguo a Teresa, durante muito tempo, devido ao mau tempo, enquanto aguardavam o regresso a Portugal num aeroporto internacional. Pedro, limitado fisicamente na sua mobilidade, tal como Teresa, movimentava célere o pensamento e puderam, aí, com tempo, comungar os seus espíritos vivos, atentos, reflexivos. Teresa e Pedro fizeram-se amigos. Amigos reais e virtuais. Comunicavam-se diariamente, compreendiam-se, permutavam ideias, opiniões, sugestões, … e encurtavam a auréola das suas solidões!

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