Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Encontro de olhares

Uma carruagem de aprendizagens

Conta o Leitor

2013-08-05 às 06h00

Escritor

ALFABETA

Ocalor intenso, pouco comum naquele final de tarde de verão, envolvia aqueles dois seres sentados na areia molhada, olhando abraçados, o mar que se estendia a seus pés, até se perder de vista, alheados de tudo o que os rodeava, incluindo alguns olhares de estranheza pela singularidade.

A cadeira de rodas repousava enterrada na areia, uns metros atrás, e eles ali, indiferentes a tudo, deixavam que a brisa marinha acaricia-se seus rostos.
- Ruca, sabes que dia é hoje?
- Julgas que esqueci o dia em que pela primeira me cruzei contigo? Impossível!
Um riso forte e cristalino rompeu o sussurrar das ondas em sua rebentação.
- Pois é! Tinha o braço ao peito engessado, com um peso incrível que me dificultava o caminhar na areia e de repente… catrapum!!! tropecei caindo com o peso todo, daquele braço, por cima de teu tórax. Nem me quero lembrar!
- Mas eu lembro bem cada momento, cada expressão tua, como se fosse hoje!
E seus olhos semicerrados percorriam o horizonte na busca dessas memórias.
Tinha acabado de refrescar seu corpo nas águas frias das praias do norte.
Estendeu a toalha perto da rebentação das ondas. Gostava de sentir a frescura húmida dessa proximidade. Jogou o corpo sobre a toalha. Precisava descansar. A noite anterior tinha sido uma noite mal dormida, sentia-se exausto. Subitamente o cansaço deu lugar a um mau estar acompanhado de uma forte compressão no abdómen….
Abriu os olhos lentamente, nos lábios um esgar de dor rompeu o silencio… auuuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhhh e aquela visão, muito próxima de seus olhos… Um belo rosto, de grandes olhos castanhos, amendoados, expressivos, cabelo castanho, apanhado num pequeno rabo de cavalo e aquele corpo… aquele corpo... Lindo!
A t-shirt que Lia usava deixava a descoberto ombros perfeitos, de um bronzeado suave. Os calções curtos, pernas lindas e bem definidas!
Um observador mais atento facilmente concluiria que seu hobby era fazer ginásio Seus braços e pernas, bem definidos (sem exageros) eram disso resultado. Tudo na proporção exacta do considerado belo, perfeito e harmonioso.
O braço engessado, resultado de uma aparatosa queda (na semana anterior), não teve piores consequências por ter caído bem, suportando o peso da queda com um dos braços (técnicas aprendidas na Chin Na Shu).
Rodrigo, favorecido pelo ângulo de visão em que se encontrava não lembrava mais a dor e suas mãos iam-se fechando, apertando…apertando…
As memórias desse dia transportavam também Lia a esse tempo.
Ao cair da tarde enquanto fazia seu percurso habitual, caminhando bem junto à água, deixando as ondas rebentarem em seus pés, acariciando-os.
Olhava embevecida, o mar, em contraluz, atirando salpicos em todas as direcções. Subitamente… tropeça e cai por cima de…
Num ápice sente-se agarrada e suspensa no ar. O insólito da situação provoca-lhe dificuldade na linguagem, articulando as palavras desordenada e timidamente, ah…uh…uh…des…cul…pe…não…por fa…vor…não tava…não…queria…magoa-lo, não vi…o obstáculo, acre…di…te, por fa…vor…solte…me?
Lia sentia o olhar daquele jovem, profundo e intenso, fixado em seu rosto, como que em êxtase, apertando-a com força.
Recordava ele ter dito, de olhos desmesuradamente abertos, numa voz rouca e sussurante, enquanto suas mãos (agora livres) massajavam levemente seu tórax.
- Como conseguiu… aterrar em cima de mim precisamente com todo o peso desse braço engessado?! …obstáculo… eu?! A visão é de sonhos…mas a dor, essa é real!
- Li…Li... por favor ajuda-me a ir áá água.
Lia, volta de imediato á realidade. Tinham passado três anos desde que se conheceram e dois anos, que juntos viviam partilhando uma completa felicidade, sob os olhares de inveja de alguns casais amigos e de alguns colegas de trabalho.
Aquele jovem, de porte atlético, bem bronzeado, de intensos olhos verdes, vasto cabelo preto encaracolado, ligeiramente longo, de reflexos azuis…tinha ficado paraplégico, vitima de um terrível acidente de viação, pouco tempo depois de se terem conhecido, no regresso de um jantar com colegas de faculdade, que terminaram nesse ano, como ele, o curso de Engenharia Informática.
Na altura Lia não tinha ainda, concluído o curso de enfermagem. Seu espírito independente, de invulgar responsabilidade, ia fazendo traduções de inglês, numa editora onde trabalhava em part-time e escrevia alguns artigos sobre cuidados de saúde, no jornal local, onde foi convidada a permanecer.
O amor tinha vencido todos os contratempos, constrangimentos e rejeições familiares.
À revelia de tudo e todos Lia decide, pouco tempo depois do acidente, ir viver com Rodrigo e comunica-lhe:
- Ruca, encontrei um apartamento para nós, bem acessível, na periferia da cidade, um local sossegado e perto do “nosso mar”.
Do rosto de Rodrigo deslizavam lágrimas de felicidade à medida que ia falando.
- Abençoado trambolhão! Sabes, eu estava de férias com uns amigos, naquela vila, que não conhecia, e naquele dia não quis acompanhá-los num programa diferente, fiquei ali… à tua espera, depois…
Começava sendo hábito frequente Lia, interromper as incursões deambulatórias de Rodrigo sobre “aquele dia”, sobre aquele encontro de olhares.
- Eu sei Ruca. Recordo bem que tinhas chegado á vila com teus amigos surfistas nessa semana. Toda a gente sabe que em locais pequenos, a chegada de “estrangeiros” não passa nunca despercebida.
Repetia vezes sem conta, com a paciência do primeiro dia, a mesma frase, invariavelmente.
- Amor, vamos andando para casa? Começa a correr uma ligeira brisa, não quero que apanhes frio. Não podes. Precisas estar bem para te submeteres aqueles novos exames e tratamentos na tal clínica.
- És e serás sempre o meu doce anjo, atenta a tudo, mas eu também estou atento, sabias? Reparei que ultimamente estás diferente, alguma coisa se passa. Comes mal, tudo te enjoa… devias ir ao médico, pode não ser “a figadeira”, como tu dizes.
- Não te preocupes amorzito vou marcar consulta com a minha amiga Dra. Julieta e logo se verá, ok?
- Vais fazer isso antes da viagem a Espanha, de contrário fico mais tenso e já não posso fazer os exames.
- Chantagem meu querido, isso não! Sossega que vou falar com a Julieta, tá?
Lia, guardou para mais tarde, comunicar-lhe que estava grávida, sem margem para dúvidas. Tinha o resultado das análises. Positivo.

Sabia o quanto iria faze-lo feliz, mas também mais preocupado com o futuro.
Fazia questão de lhe comunicar a novidade, criando um ambiente, doce, tranquilo e mágico… onde o Amor que os unia, fosse o elo mais forte, reforçado por esse pequenino ser que começava a germinar dentro de si. Não queria nada a ofuscar aquele momento único, só deles…
Rodrigo trabalhava numa conceituada empresa de roupa de desporto, de marca.
O horário era feito à sua medida, entrava e saía quando queria.

Adquirira um estatuto privilegiado, fruto da responsabilidade demonstrada na execução de seus trabalhos. Tornou-se assim o responsável pela criação (com sucesso) de programas na área do marketing.

Convidaram-no a trabalhar na Austrália numa das filiais. Rejeitou.

Não era sua intenção separar-se de Lia, ainda que por um curto espaço de tempo, apenas seis meses, mesmo aliciado por elevados rendimentos que iriam ajudá-los no equilíbrio do orçamento familiar. Paralelamente, o descobrimento daquela clínica em Espanha que, segundo diziam operava milagres, veio transformar seus objectivos, suas vidas.

Uma luzinha de esperança no interior de ambos, ia crescendo, despertando no brilho de seus olhares um acreditar constante na recuperação dos movimentos perdidos de seus membros inferiores, que nenhum dos muitos médicos consultados, acreditava ser possível acontecer.
Todas as histórias, avidamente escutadas, descreviam casos “sem recuperação”, (no interior de uma pequena cidade Espanhola) saírem completamente recuperados.

Juntos seguiam rumo a casa. Lia, empurrava suavemente a cadeira e Rodrigo no seu habitual bom humor, de sorriso constante, brincava, contando adivinhas, charadas e pequenas anedotas que faziam Lia soltar gargalhadas de felicidade.

Observando-os ninguém diria o sofrimento vivido por ambos. Juntos nas dificuldades, nos imensos tratamentos, nos custos, no tempo perdido, na procura de uma cura que transportasse Rodrigo novamente, às suas capacidades motoras na pratica do dia a dia, sem dependências; Caminhar, deslocar-se sem ajuda, conduzir sem o recurso a sistemas automáticos de controlo, praticar desporto…

Quando as emoções puras e verdadeiras unem dois seres para sempre, as barreiras que os separam, são apenas uma forma de tornar mais consistente essa ligação, elevando-a a níveis que transcendem em muito a racionalidade sensual de intemporalidade, desse sentimento chamado Amor.

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