Correio do Minho

Braga, terça-feira

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Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2015-02-22 às 06h00

José Manuel Cruz

Salvo escaramuças localizadas, é possível que a guerra no leste da Ucrânia tenha efectivamente terminado. A União Europeia terá atingido o cessar-fogo pretendido; os separatistas russófonos usufruirão da tranquilidade para delinear o poder político próprio de um estado autónomo; Putin tem a anexação da Crimeia como irrevogável, tanto que foi assunto que nunca terá vindo à baila nas conversações de Minsk. Num cenário em que os ucranianos se afiguram os únicos perdedores, é de crer que venham a afogar a frustração nos vultuosos apoios que a nova aliança político-económica coloque à disposição de Kiev. No fundo, ironias à parte, talvez os ucranianos tenham também eles conquistado o que pretendiam, a saber, o divórcio definitivo com os irmãos eslavos.

Tudo na minha história passada me faria acompanhar com atenção os arrufos e malquerenças entre russos e ucranianos. De freio nos dentes, lamentavelmente, a desavença transbordou dos limites do aceitável. Não que desse modo puxe galões, escrevi sobre o assunto há mais de um ano. Dentro do que dou por adquirido, num primeiro momento a UE recusou o montante de ajudas reclamado por Kiev, razão pela qual o presidente de então declinou o protocolo que lhe davam a assinar em Vilnius. O descontentamento explodiu em Kiev, e o poder caiu na rua, mais concretamente na praça Maidan. Não houve quem não reprovasse a suposta - a mais que certa - ingerência de Moscovo. Seriam os tiques neo-imperialistas, disse-se, seria o saudosismo soviético. Teria sido, depois, a repressão hedionda infligida aos partidários da democracia, com cargas policiais e disparos indiscriminados sobre os cidadãos anónimos concentrados em prece na praça da liberdade.

Eis senão quando vêm a lume telefonemas comprometedores, da subsecretária de estado americana Victoria Nuland, sugerindo quem deveria integrar ou não um novo governo ucraniano: Klitsch ou Yats? Que ideia, Yats - Iatseniouk - é o nosso tipo! E lá está Yats à cabeça do estado! Depois terá sido a falsa surpresa da baronesa Catherine Ashton, alta representante da diplomacia europeia. Imagino o choque que terá sentido quando a ministra dos negócios estrangeiros da Estónia lhe confidenciou, ao telefone, que de acordo com os dados de que dispunha, eram os mesmos snipers que disparavam contra as forças da ordem e contra os manifestantes. Quem seriam os snipers? Malta do Svoboda e do Pravy Sektor, ou seja dos arregimentados pelas forças neo-fascistas.

Não é de agora que se encenam golpes de estado, que se executam operações com as quais se pretende o comprometimento de adversários. Por mim, acredito que algo de semelhante tenha ocorrido em Kiev vai para um ano. Não discuto hoje, como já não o fiz no passado, a aspiração dos ucranianos de integrar a UE, à semelhança dos bálticos, à semelhança de húngaros ou polacos. Por mim, melhor estaríamos, até, se a Federação Russa estivesse com a UE nos mesmos termos que Confederação Helvética. Mas, tanto quanto os dados disponíveis me permitam fazer um juízo independente, talvez o odioso esteja longe de recair integralmente sobre os ombros do maquiavélico locatário do Kremlin.

Falou-se à exaustão das aspirações expansionistas de Moscovo. Existam ou não, é assunto em que não sou versado. Polacos e bálticos insistiram num reforço de protecção militar, de tão inseguros que se sentiam. Com os anos que levam de independência, nunca uma pretensa aspiração hegemónica russa os incomodou, mesmo sabendo-se que na Letónia existe uma expressiva minoria russa que não goza hoje dos privilégios que conheceu no passado. De facto, quanto seja conhecido, nunca o Kremlin esboçou o que fosse face a Riga. Também, verdade seja dita, nunca a minoria russa do país báltico se sentiu tão acossada quanto recentemente vieram a sentir-se as maiorias locais de Donetsk, Lugansk, e Crimeia.

Qualquer que seja a situação, podemos sempre acreditar em algo que não tem a menor correspondência com a verdade. Nós, do lado de cá, acreditamos piamente que a culpa reside toda no lado de lá. Acreditam os cidadãos anónimos prisioneiros da sua boa-fé. Acreditam, ou fazem crer que acreditam, os interventores políticos que, mesmo sabendo que falseiam a verdade, insistem dia após dia na mesma ladainha. Recordo, em fecho, que a anuência de Moscovo a uma reabsorção serena da Alemanha de Leste teve como contrapartida o compromisso que a NATO não ultrapassaria as fronteiras alemãs. Ora aí está acordo que não valeu o papel em que foi assinado. Culpa de quem?

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