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Emigração e desafios para o futuro

Três em linha para uma sardinha

Emigração e desafios para o futuro

Ideias

2023-09-29 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Basicamente um país de poetas e sonhadores, romantizamos o passado, e esperamos sempre um qualquer D. Sebastião que nos salve das agruras, ainda que demore a chegar e só o faça por entre brumas da memória…
A forma como lidamos com a questão da emigração enquadra-se nesse contexto. Joel Serrão (1971) fala de uma emigração “caudalosa” para o Brasil no séc. XIX, um fluxo “ininterrupto”, fazendo coexistir emigrantes com colonizadores que partiam para as ilhas atlânticas nos séculos XV e XVI, ou para África já por finais do séc. XIX. O “rush” para o Brasil no séc. XVIII deveu-se fundamentalmente à descoberta de minas de ouro; chegou aos dois milhões de pessoas, em grande parte das regiões de Entre Douro e Minho. Tanta gente, que uma lei de 1720 veio a proibir que “deste Reino passe para as Capitanias dos Estados do Brasil a muita gente que todos os anos se ausenta dele, principalmente da província do Minho, que sendo a mais povoada, se acha hoje em estado, que não há a gente necessária para a cultura das terras, nem para o serviço dos Povos “. O repatriamento foi bastante menos significativo do que se julga. Em grande parte dos casos, a família original vinha a ser substituída por uma nova, e o emigrante nunca mais voltava. Quando acontecia, vinha morrer para uma casa alargada e umas propriedades compradas “á custa de labor intenso e hábitos de parcimónia” (Serrão, Joel). Uma obra notável, agora felizmente a ser reeditada pelo Público, mostra como competia às mulheres, que ficavam, a manutenção do cultivo, normalmente em condições de grande isolamento, baixa escolarização e pobreza (Maria Lamas, as Mulheres do meu País).

As “casas de brasileiros” que pontuam ainda o cenário rural e contribuíram para a mitologia da emigração não podem fazer esquecer a realidade crua dos dados: a partir do séc. XIX, a imigração brasileira estava subordinada à mão de obra para a agricultura, substituindo o trabalho escravo. As condições reais de vida não se afastavam muito do que existia anteriormente. As pessoas que iam, de Portugal e de tantos outros países europeus, seguiam com contratos de “servidão” que obrigava ao desconto do preço dos transportes e de outros serviços prestados. E entre aqueles que se fixaram nas cidades, na maioria dos casos dedicavam-se a atividades mercantis de baixa lucratividade.
Joel Serrão cita os resultados do “Primeiro Inquérito Parlamentar sobre Emigração”, de 1873: ”comiam, dormiam e trabalhavam como os escravos, quer dizer, tinham a sua ração de carne seca, feijão e farinha, que eram obrigados a cozinhar para comer na hora do almoço e do jantar... Trabalhavam a par dos escravos, que principiava ao romper de alva e terminava às nove horas da noite, apenas com interrupção das refeições. De dia cavavam na terra, de noite lançavam ou tiravam tijolos do forno”.
Alexandre Herculano justificava o fluxo contínuo da emigração com base na “insuficiência dos salários entre nós”. Mas nunca contribuiu de facto para se ultrapassar um dos grandes problemas da economia portuguesa, a falta de capital. Esta insuficiência manteve níveis de produtividade agrícola muito baixos e permitiu uma industrialização efetiva muito mais tardia que no resto da Europa. Apesar da enorme importância que sempre tiveram as remessas dos emigrantes e do seu efeito positivo na correção dos défices orçamentais.

Entre 1958 e 1974 emigrou, para França apenas, cerca de um milhão de portugueses. As histórias deste período, da “mala de cartão” são terríveis, marcadas pela discriminação no trabalho e no alojamento. A Europa destruída, no pós-guerra, precisava urgentemente de mão de obra e em Portugal mantinha-se uma guerra colonial, atraso económico e baixos níveis salariais. Por cá, a estrutura social manteve-se quase intacta. O quadro rural foi pontilhado por inúmeras construções para as férias, para quando retornassem, as mulheres mantiveram o seu papel fundamental, e as remessas dos emigrantes continuaram a gerar efeitos na balança de pagamentos. À custa, tantas e tantas vezes, dos bidonvilles e de grandes restrições… Para o passa palavra ficava o efeito demonstração, a casa e as propriedades rurais compradas, a melhoria relativa dos níveis de vida. Calava-se a parcimónia com que se vivia, as discriminações várias, a luta no dia a dia…

Mas a verdadeira alteração económica e social não se deveu à emigração. Foi o resultado do fim da guerra, do 25 de abril, da implementação do Estado Social, da explosão no acesso à educação e à saúde. Foram esses fatores, entre outros, que permitiram de facto a criação efetiva de condições de melhoria de vida, a atuação do elevador social.
Hoje parece que a emigração surge como a porta para o paraíso. Para uma vida sem dificuldades, com segurança e um mínimo de esforço. Apetece-me dizer a todos os jovens: explorem alternativas e oportunidades, sim, mas com a consciência plena de que é sempre preciso lutar. Aqui, como lá, onde seja. O futuro é construído, e modificado, cada dia. Dos países como a Dinamarca, a Noruega, a Inglaterra e tantos outros, também se emigra para Portugal.

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