Correio do Minho

Braga,

Emigração Portuguesa: Uma fatalidade histórica?

Amigos não são amiguinhos

Ideias

2014-03-01 às 06h00

António Ferraz

O assunto de hoje é para mim muito caro como emigrante que fui em terras brasileiras nos anos 1950 e 1960. A emigração portuguesa tem sido um constante ao longo da história do país. Porque razões? Quais as semelhanças e diferenças da nossa emigração no passado e no presente?
Desde o século XV que Portugal têm sido um país de emigração. Nos séculos XV e XVI o fluxo emigratório fez-se para as costas do norte de África (Marrocos), Ilhas Atlânticas (Açores, Madeira, São Tomé, Cabo Verde e Canárias) e, com a descoberta do caminho marítimo para a Índia (1498) estendeu-se ainda para todo o oriente até finais do século XVIII.

Em meados do século XVI a emigração portuguesa tem como destino sobretudo o Brasil com maior fluxo emigratório no século XVII e que se manterá até finais dos anos 1950.
Em finais do século XIX a emigração portuguesa procura destinos alternativos ao Brasil, quer na Europa, quer no outro lado do Atlântico (EUA, Argentina, Venezuela, Canadá, Austrália, etc.). São também cada vez mais os portugueses que se dirigem para a África, em direção às colónias portuguesa (Angola, Moçambique, etc.) e outros destinos na África Austral (África do Sul, Zimbawbé ou o Congo).

Porém, o maior dos surtos emigratórios portugueses, surge a partir de finais dos anos 1950, e destinados agora à Europa, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Suíça, etc. Em menos de dez anos, emigram para a França mais de um milhão de portugueses. Esses emigrantes eram adultos, de origem no mundo rural, não qualificados e pouco ou nada alfabetizados.
A emigração de portugueses continuou…

1) Com a adesão de Portugal à antiga C.E.E. (1986) a emigração portuguesa teve uma dimensão mais modesta, assumindo um carácter mais temporário e cada vez mais ligada a investimentos económicos, realização de estudos, atividades profissionais, tradição, etc.
2) A partir dos anos 2007/2008 com crise económica e financeira, aumento significativo do desemprego e baixos salários, a emigração portuguesa sofreu um notável recrudescimento (mais de 100 000 pessoas por ano). Porém, ao contrário do passado, o atual fluxo emigratório é maioritariamente composto por pessoas jovens e altamente qualificadas (quadros técnicos e científicos).

Se a emigração tivesse um carácter mais temporário até poderia beneficiar o país porque estes ao regressarem à Portugal trariam consigo investimentos, maiores qualificações e melhores competências.
Infelizmente, não é esta a realidade atual onde são mais e mais os jovens emigrados ou candidatos à emigração que declaram a sua intenção de saírem do país de uma forma permanente, considerando terem sido altamente defraudados nas suas expectativas e com poucas perspectivas de futuro.

Na presente crise o elevado fluxo emigratório de jovens qualificados, o seu carácter mais permanente e a baixa da taxa de natalidade do país, uma verdadeira “mistura explosiva”, não augura nada de bom para Portugal ao comprometer o seu futuro posto os entraves criados à expansão do produto potencial e ao crescimento económico.

Por fim, algumas razões explicativas da emigração portuguesa:
1. Geografia: Portugal fica num extremo da Europa, entre a Espanha e o Mar. A sua longa costa poderá ter criado intenções de explorar outras terras e descobrir novas culturas.
2. Miséria: Milhões de portugueses têm vindo a emigrar para fugirem à miséria, a falta de trabalho nos campos e nas cidades, aos salários miseráveis e a falta de proteção social. A emigração portuguesa entre meados do século XIX e os anos 1970 fez-se por esta razão o que é atestado aliás pelas descrições dos emigrantes.
3. Tradição: A emigração é uma tradição secular em Portugal alimentada pelo facto de existirem muitas comunidades de nacionais espalhadas pelo mundo.
4. Fuga a Perseguições Religiosas e Políticas: Tivemos dramáticas perseguições religiosas a judeus e cristãos-novos (inícios do séculos XVI e seguintes). No século XX, são as perseguições políticas entre 1926 e 1974 (com a ditadura do Estado Novo) e em 1961 a 1974 devido a fuga de centenas de milhares de jovens ao serviço militar e a guerra colonial.
5. Missão Histórica: Desde o século XVI criou-se a ideia de atribuir ao povo português uma missão histórica de difusão da fé cristã pelo mundo.
6. Abertura de Horizontes: Como vimos a situação geográfica do país conduziu a um certo isolamento cultural, o que pode explicar a saída de muitos milhares de portugueses para o exterior.

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