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“Em tempo de guerra, não se limpam as armas”: imaginação e habilidade, já!

Criado... não aceita mau destino

“Em tempo de guerra, não se limpam as armas”: imaginação e habilidade, já!

Ideias

2020-05-03 às 06h00

Pedro Madeira Froufe Pedro Madeira Froufe

A Comissão europeia, agora presidida por Ursula Von der Leyen mereceu a aprovação do Parlamento Europeu no final de 2019, em 27 de Novembro. No entanto, mesmo sem uma tomada de posse formal (em virtude do estado do Reino Unido, vivendo, então, um pré-“Brxit” formal), o plano de ação da Comissão foi logo apresentado por Von der Leyen e nele sobressaíram algumas linhas que, concretizando-se, poderiam ser mesmo revolucionárias. O “Green Deal” europeu era uma delas. A atenção ao ambiente e o combate às alterações climatéricas fizeram parte das prioridades veementemente anunciadas. E numa perspetiva inovadora: sem colocar em causa o nosso modo de vida (tecnológico, avançado e, porque não dizê-lo, “confortável”), procurava potenciar as vantagens das novas tecnologias, da digitalização crescente e desejável da vida quotidiana. A ideia era (é) simples: até agora, o desenvolvimento e a criação de riqueza têm dependido da exploração de recursos naturais. A industrialização tem sido o principal fator de desflorestação e do crescimento de emissões de gases nocivos. Ora, a proposta é simples: uma mudança de paradigma de desenvolvimento e de criação de riqueza. Não temos que voltar à “idade da pedra”, temos que avançar para um futuro sustentável. Ou seja, encontrar novas formas de criação de riqueza que não dependam da exploração intensiva de recursos naturais, promover a eletrificação crescente da nossa vida e a aposta em novas formas de criação de valor, de valorização dos processos produtivos, sem ser à custa da destruição de recursos e de ecossistemas. A Inteligência Artificial, a crescente digitalização, a economia comum, poderão suplantar as formas tradicionais de criação de riqueza, sendo, contudo, muito mais sustentáveis. E, sobretudo, sem significarem um retrocesso civilizacional,…do tipo, andarmos todos a pé ou de barcos à vela – por mais romântico, bonito, pueril, mas também insensato e atávico que seja!

Este objetivo implicava uma proposta financeira – orçamental arrojada: cerca de 25% do Orçamento da União seria destinado a esta grande revolução!
Ora, o debate sobre o plano financeiro para os próximos cinco anos ainda está em curso, porém, é consabido e assumido que o “Green Deal” europeu terá que retardar-se (sendo otimista!). Desde logo, a prioridade da afetação de recursos financeiros irá para a reconstrução de uma Europa destruída (nomeadamente sob o ponto de vista económico) no “pós-vírus” ou mesmo para uma Europa que terá que (con)viver com medo e com o vírus (se não houver “pós-vírus”, se não houver tão cedo vacina contra o Covid-19).

Por outro lado, construímos a integração europeia, ao longo dos últimos 69 anos, assente num pilar: a liberdade de circulação, desde logo de pessoas, de trabalhadores, mas também de todos os fatores de produção. A própria ideia (política) da criação da “cidadania europeia” assenta na liberdade de circulação dos cidadãos europeus e no tratamento igual, independentemente das nacionalidades de origem, entre todos os que circulam (e não circulam). É certo que, como vários estudos e comentadores notaram, nunca as populações europeias deram muita importância e prioridade a essa possibilidade/direito de circularem. E isso, mesmo em termos de mercado de trabalho – tirando em certos períodos de dificuldades circunstanciais e com certos tipos de atividade mais naturalmente vocacionados para a transnacionalidade. No entanto, o conceito e a principiologia da livre circulação são (têm sido) fundamentais para a construção do projeto europeu. Talvez seja, numa certa perspetiva fundacional, a sua razão primária de ser! O vírus afetou essa liberdade de movimentos, natural e inevitavelmente! O subconsciente europeu agora vira-se – ainda que se anseie o contrário – para a proteção e isolamento víricos, o que é um tiro no coração da integração!

Em resumo, em termos de integração europeia, esta crise pandémica fez aquilo que várias crises e impasses políticos (cujos efeitos, bombasticamente, sempre gostamos de exagerar!) e o “Brexit” nunca conseguiram fazer. Abalá-la nos seus princípios e nos seus planos de futuro!
Imaginação, precisa-se, urgentemente. E muita habilidade política.

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