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Braga, terça-feira

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Em Tadim - o Abade contra o Bispo

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Ideias

2016-11-13 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A cobrança de impostos tem sido uma luta incessante entre aqueles que sentem que dominam e os que sentem que são dominados. Desta luta, muitos são os que tentam fugir com as suas obrigações, não pagando impostos, ou pagando menos do que deviam.
Foi neste contexto de luta quase titânica pelos impostos que ocorreu um episódio em Tadim (concelho de Braga) entre um empresário e o pároco da freguesia.
No início do século XX, muitas das mercadorias em Braga ainda eram transportadas por carros de bois. Contudo, nas deslocações mais longas, os caminhos de ferro desempenhavam um papel determinante nas transações comerciais.
A ligação ferroviária entre o Porto e Braga era a mais utilizada para o transporte de mercadorias. Na estação de Braga existiam armazéns (de madeira, pretos, em consequência da intensidade do fumo das locomotivas) onde eram guardadas as mercadorias, tal como acontecia nas estações de Arentim e de Tadim.
Nessa altura, as juntas de paróquia desempenhavam um papel religioso, mas também administrativo. Em 1830 foram criadas estas juntas e em 1836 estabeleceu-se que o pároco seria obrigatoriamente o presidente da junta de paróquia. Não é de estranhar que o pároco fosse, desta forma, a autoridade máxima de uma freguesia, quer no contexto religioso, quer no contexto administrativo.
Assim, em 1903, um destacado comerciante de Tadim, Inácio Pereira Bispo, dono de uma taberna, resolveu mandar vir do Porto 40 sacos de farinha e 5 de farelo. Fê-lo, no entanto, por intermédio de José António da Rocha. No dia 27 de junho desse ano, o Bispo resolveu mover influências junto do abade de Vilaça, que era também vereador na Câmara Municipal de Braga, informando-o de que o imposto dessa encomenda seria pago por José António da Rocha.
Deslocando-se à estação de Tadim, o Bispo levou tranquilamente a mercadoria para casa, em pleno dia e à vista de todos.
Com ou sem estratégia, o Bispo de Tadim considerou que a mercadoria não estava em boas condições, provavelmente por estar fresca de mais, e informou José António da Rocha que pretendia comprar-lhe mais alguns sacos de farinha, que este tinha no seu armazém, para compensar a má qualidade da primeira.
Como os dias foram passando e o imposto da mercadoria não entrava nos cofres da Câmara Municipal de Braga surgiram, no dia 21 de julho, próximo da casa do Bispo, três zeladores municipais, que se deslocaram desde a estação de Arentim, e disseram-lhe que os teria que acompanhar até à estação de Tadim, cumprindo ordens do vereador Mota, da Câmara Municipal de Braga!
Os zeladores municipais e o sr. vereador Mota queriam também saber para onde tinham ido parar oito ou dez cascos de vinho, que se presumia terem saído da estação de Tadim, juntamente com os 40 sacos de farinha e cinco de farelo!
O Bispo ainda respondeu que tinha conhecimento da saída de apenas quatro cascos de vinho, da estação, com destino a um indivíduo de Tebosa, mas que este tinha pago os impostos à Câmara Municipal! O problema é que esse dinheiro não tinha entrado nos cofres municipais!
Este conflito foi muito comentado na altura, por toda esta região, tendo o Bispo e o abade de Tadim trocado acusações públicas sobre a fuga aos impostos e a postura que ambos tinham perante a sociedade e as instâncias camarárias.
Comentava-se, publicamente, nos adros das igrejas e nas tabernas desta zona, que o município de Braga foi lesado, porque o Bispo recebera na estação de Tadim uma encomenda de farinha e farelo que era proibida pelos regulamentos municipais! Por outro lado, nem o Bispo quis pagar a encomenda, que não vinha em seu nome, mas no nome de José António da Rocha, nem este quis pagar os impostos, uma vez que a encomenda não era destinada a si!
De referir ainda que o Bispo tinha uma taberna e, para muitos homens da altura, este pressionava os clientes para que não frequentassem as outras tabernas e privilegiassem a sua!
As conversas populares eram marcadas pelos constantes ataques ao Bispo, apelidado de “Falsário” e “Gatuno”, uma vez que várias pessoas diziam ter roubado a Francisco Ferreira Dias, de Tadim, a quantia de 10$000 réis e de ter inventado uma participação contra o abade de Tadim, três anos antes, acusando o religioso de ter cortado vários pinheiros na freguesia!
Em todo este processo, o abade de Tadim, João Evangelista Pereia Gomes, acusou o Bispo de ter lesado os cofres da Câmara Municipal em 340$000 réis. Os vereadores comprovaram que houve transgressão por parte do Bispo, mas acabaram por perdoar-lhe a multa, o que indignou ainda mais o abade! E o Bispo não pagou porque do Governo Civil não veio a comunicação para a Câmara Municipal sobre tal processo!
Ora, como o decreto de 6 de setembro de 1902 dizia que “a aprovação das deliberações será sempre comunicada às câmaras municipais ou às juntas de paroquia”, o que não aconteceu, o Bispo de Tadim acabou mesmo por não pagar a multa, contra grande indignação do abade da mesma freguesia!

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