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Braga, segunda-feira

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Em S. Victor, só com a ajuda da polícia conseguiram casar

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Ideias

2013-12-09 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

A sociedade portuguesa actual está marcada por uma diminuição do poder de compra dos jovens e das famílias, cujos reflexos atingem directamente os casais. Como consequência, tem aumentado o número de jovens que permanecem a viver com os pais, até uma idade mais avançada; tem aumentado o número de jovens casais que recorrem à ajuda económica dos pais e/ou dos avós, assim como tem reduzido o número de filhos por casal.

Aproveitando esta realidade, vou recordar um acontecimento verdadeiramente hilariante que ocorreu na freguesia de S. Victor (concelho de Braga), há exactamente 110 anos.
O incidente, que foi amplamente comentado não só em S. Victor, mas em toda a cidade de Braga, envolveu uma noiva, um noivo e uma mulher com um filho ao colo. Depois, muitos curiosos, muitos apupos e ameaças e, claro, a intervenção da polícia!

Tudo se passou dois dias depois do Natal de 1903 (a 27 de Dezembro), quando Manuel Teixeira, um lavrador, residente em Santa Tecla, se apresentou, logo pela manhã, na igreja de S. Victor, para casar-se com uma jovem, filha de lavradores.
Quando se preparavam para entrar na igreja, surgiu de repente a jovem Maria da Conceição, moradora na Rua do Raio, e que se apresentou com uma criança ao colo, dizendo alto e de forma clara que a pequenina que ali trazia era filha do lavrador Manuel Teixeira, que estava prestes a casar.

As frases proferidas em tom elevado por Maria da Conceição chamaram a atenção das pessoas, que rapidamente se aproximaram do local para ver o que estava a acontecer junto à sua igreja. Depressa se juntaram centenas de pessoas, principalmente mulheres, que decidiram quase por unanimidade tomar partido da jovem mãe e, em sentido contrário, ofender os noivos que aí se encontravam.

Perante este anormal acontecimento, o padre da freguesia aconselhou os noivos a retirarem-se, da forma mais discreta possível, solicitando-lhes que comparecessem nessa igreja, ao final da manhã. O pároco esperava que, desta forma, a multidão se retirasse do local e o casamento pudesse ser efectuado.

Ao final da manhã, os noivos voltaram a comparecer no local para, desta vez, poderem efectivamente celebrar o casamento, que tanto desejavam. No entanto, a multidão voltou de novo a concentrar-se junto à igreja de S. Victor. Pior, desta vez, as pessoas rotularam os noivos com impropérios que, de tão ofensivos e deselegantes, se dispensam aqui a sua reprodução!

O padre da freguesia aconselhou novamente os noivos a retirarem-se da igreja e a regressarem mais tarde, evitando desta forma que as consequências fossem maiores e mais desagradáveis!
Depois de algum impasse, os noivos lá acataram o conselho do pároco, decidindo comparecer ao início da tarde para, dessa vez, poderem definitivamente celebrar o casamento. No entanto o padre, temendo que a concentração popular pudesse regressar para junto da igreja, resolveu pedir a protecção das forças policiais, não fosse “o diabo”, em forma de aglomeração popular, surgir mais uma vez para impedir o casamento!

Às 14 horas desse dia 27 de Dezembro, os noivos lá se aproximaram, pela terceira vez, da igreja de S. Victor. Desta vez resolveram chegar separada e secretamente à igreja, para evitar a curiosidade das pessoas. No entanto, tal como os noivos não desistiam, também a multidão fazia o mesmo, concentrando-se em número cada vez maior. O que valeu nesta terceira tentativa foi a eficácia do cabo da polícia de Braga, que acompanhado por dois guardas, exigiram respeito e ordem, pois se isso não acontecesse teriam que proceder a prisões de todos os que não a respeitassem!

Foi perante esta segurança policial que os noivos entraram separadamente pela sacristia, dirigindo-se ao altar para, finalmente, celebrarem o casamento. Mesmo assim, os populares exigiram aos guardas a entrada no templo, conseguindo-o mesmo, não se tendo, no entanto, verificado desacatos no interior da igreja, que estava a “explodir” de tensão e de emoção.
Findo o casamento, os noivos lá saíram da igreja casados, mas protegidos de perto pela polícia e perante um coro de críticas e de humilhações!

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