Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Em direcção ao abismo

O maior desafio dos 50 anos de Democracia

Em direcção ao abismo

Ideias

2024-02-20 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

Porquê? Porque é que sabendo-se: Que a liberdade só é possível em Democracia; Que são os países democráticos os mais prósperos, mais ricos e equitativos na distribuição de riqueza; Que este é o único regime político que permite aos seus cidadãos remover do poder aqueles que não o exercem com a responsabilidade e competência; sejam as próprias Democracias a admitir como solução experiencias radicais que sabemos ser contrárias à liberdade de escolha?
A História tem momentos que parecem repetir-se. De tempos de crescimento económico e progresso social e cultural, sucedem-se, muitas vezes, épocas de atraso, empobrecimento e opressão social e política. Parece haver na Humanidade a saturação da vida pacífica e uma atração por aventuras que envolvem riscos, lutas e a reverência por heroísmos, mesmo que muitas se paguem com dor e sangue.
Será que nos aproximamos novamente de uma época desta atração para as roturas desconhecidas mesmo sabendo-se que nunca se viveu tanto tempo em paz e com um desenvolvimento excecional, como nunca antes a História registou?

Tenho os meus receios. Sinto o risco a aproximar-se e são muitos os sintomas que me convencem disso. Haverão certamente explicações que justifiquem a vontade de mudanças mais arriscadas, como um grito que visa chamar a atenção dos que não se sentem satisfeitos. Exige-se a mudança da gestão pública. A visível desilusão na Política exige roturas. Esta será, por ventura, a primeira brecha na Democracia. Na verdade, hoje a política parece cingir-se à disputa do poder, sem distinção de rumos de futuro. Os políticos mostram-se preocupados com o presente. Tudo cabe em problemas que saltam nas primeiras páginas e nas redes sociais., como urgências que exigem soluções imediatas, ou seja, as de curto-prazo. Pensar o futuro não dá votos. A qualidade política perde para o melhor barulho. Vencer é desacreditar os pares. Todos são incompetentes, menos eles. Prometem-se relevantes ganhos que não passam de remendos de oportunidade. Dá-se imediata razão a quem ousa pedir, principalmente a quem mais protesta ou exige. Não se podem perder votos. Ninguém ficará de fora, muito menos os mais desfavorecidos. As maiores preocupações não são com a produção de riqueza, mas o modo e número de abrangidos pela sua redistribuição. Há que estar atento, informado e bem relacionado. Saber aproveitar as oportunidades é tido como o grande mérito dos mais espertos. O sistema político fecha-se em si mesmo. A elite que deveria ser a dos políticos, fica diluída num sistema de organização do tipo familiar, onde só contam os escolhidos dentro de cada uma das famílias políticas, tudo mais fácil quando estas se tornam cada vez mais reduzidas. Perdeu-se o respeito aos políticos, que já não se distinguem por si, mas na tal família. Os partidos políticos deixaram de fazer política baseada em objetivos, princípios e modelos de futuro. Não falam dos seus ideais. Não cativam os jovens para os grandes desígnios sociais de desenvolvimento. Não discutem as mudanças da sociedade e da economia. O mais importante são os cargos inerentes ao poder e as pessoas para os ocuparem. Para isso é necessário preparar eleições e disputa-las. Cumpre-se uma Democracia pobre. À desilusão, segue-se a revolta. Surgem os radicais que querem varrer o sistema. O perigo surge.

O sistema político vigente em Democracia ainda não viu que o Mundo mudou. A economia está em rápida mudança. O modelo económico criado pela revolução industrial de há dois séculos, baseado no crescimento da produção que necessitava de muita mão-de-obra está a quebrar. Surgem novos modelos de desenvolvimento disruptivos. Há um Mundo digital: o da robotização, da automação e da Inteligência Artificial. Não são precisos tantos trabalhadores. Muitas das formas de trabalho que hoje conhecemos estão a tornar-se obsoletas. No entanto as preocupações políticas não se alteram, muito menos os modelos de organização administrativa dos Estados e das suas instituições de educação acantonadas nas tradições dos Doutos sabedores que se imortalizam nos cargos. Continuamos a formar e a capacitar gente para trabalhar num modelo económico que caminha para a dispensa de milhões favorecendo a criação de uma sociedade de desempregados. Apesar disto, estamos preocupados com a natalidade, porque falta gente para fazer descontos para a Segurança Social. Acreditamos que os jovens de outros lugares do mundo, nos substituem trabalhos menos apetecíveis, não nos dando conta que estamos a aumentar o número de gente sem futuro. Os serviços e trabalhos ditos de menor valor acrescentado pagam-se com trocos. Cresce a angústia de grande parte da população, sobretudo a dos mais jovens. Surge a falta de esperança. As elites políticas, académica e empresariais parecem alheias a tudo isto. Alguém vai exigir mudanças. Se não for na urna, será na rua.

Para completar este quadro preocupante, observo as grandes fragilidades na Democracia. A sua natural tolerância, em nome da liberdade, vai-se confundindo com a aceitação dos abusos. Hoje, o relativismo de pensamento instalou-se nas sociedades democráticas. O importante é a liberdade individual. Os valores coletivos, os princípios civilizacionais e culturais são tidos como ultrapassados. As Instituições são desacreditadas. Da proteção das minorias, salta-se para o foco nos seus problemas. Tudo o que distingue uma coletividade: a identidade de um povo com a sua história, a sua cultural, hábitos, costumes, os seus valores e regras de conduta, são atacados como retrógrados e práticas do passado, tidos quase como ofensivos para a muita desta gente moderna. Preenchem-se parangonas e grandes títulos com palavras eloquentes que se atiram ao ar e que terminam sempre em “..ismos, ou em …fobias”. A barafunda parece instalar-se. O normal é ser anormal.

Falta a coragem à Democracia. As reformas são preteridas em nome dos instalados, provavelmente os que neles votam. A Democracia liberal, que nos tem dado provas de ser o melhor modelo politico, está aprisionada num sistema que não quer mudar.
Temo os heróis e profetas que em nome de um futuro melhor apregoam revolucionar o sistema politico.
Ainda podemos ir a tempo.
Lembrem-se que a Democracia é dos sistemas políticos mais frágeis e menos abundante neste Planeta.
Não se esqueçam de votar. Apesar de tudo, não deixem que outros escolham por vós.

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