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Em defesa do pensamento

O Movimento Escutista Mundial (IV)

Em defesa do pensamento

Ideias

2020-10-26 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Interrogando-se um dia sobre a Europa como uma comunidade com identidade própria, história partilhada e sonhos comuns, Eduardo Lourenço concluiu que nada faz supor que uma tal ideia de Europa exista. Simplesmente porque não existe um imaginário que possa ser considerado património comum das muitas nações que a constituem. Sem história, nem memória comuns, também não podem existir sonhos partilhados.
Embora não concorde com o ponto de vista de Eduardo Lourenço, não vou discutir neste crónica a ideia de inexistência de uma identidade europeia. Vou antes dar conta de uma ideia, original e surpreendente, levado ao palco do Teatro Dona Maria II, em Lisboa, e do Teatro Rivoli, no Porto, no mês passado e neste mês de outubro. Refiro-me ao Festival Eurovisão da Canção Filosófica, uma iniciativa dos suíços, Massimo Furlan e Claire de Ribaupierre, que constitui um oásis no contexto atual de “derrota do pensamento”, já assinalada por Alain de Finkielkraut, em 1987. Tanto em Lisboa, como no Porto, o espetáculo foi apresentado por Catarina Furtado. E contou com um júri de figuras públicas, sobretudo ligadas ao jornalismo, à política, ao ensino, à música e à moda.

As canções representaram a Suíça, a Alemanha, a Espanha, a França, a Itália, a Eslovénia, a Noruega, a Lituânia, Portugal e a Bélgica, tendo esta dois representantes, um da Valónia, outro da Flandres. E à semelhança do que aconteceu em Portugal, em Lisboa e no Porto, o Festival Eurovisão da Canção Filosófica passou por todos os outros países.
É singular o facto de os autores das letras das canções serem filósofos, historiadores, antropólogos e pensadores de outras Ciências Sociais e Humanas. Nelas vimos, todavia, ser revisitada a história da filosofia ocidental, desde Zenão de Eleia e Sócrates, filósofos gregos que foram mortos pelas suas ideias. E vimos também surgir a americana Donna Haraway, bióloga e filósofa contemporânea, ligada aos estudos feministas e à cibercultura, que publicou o conhecido Manifesto Cyborg, onde estabelece uma inesperada e um tanto surreal relação entre a ciência, a tecnologia e o feminismo socialista. Assim como vimos ser cantado o nome do muito conhecido sociólogo das ciências francês, Bruno Latour, um dos fundadores dos Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia, a quem se deve a teoria do ator-rede. E à mistura com preocupações ecológicas, como a degradação da natureza e do clima, foram tematizados o caráter deletério do capitalismo financista e especulativo, a degradação da qualidade das nossas democracias, e a falta de atenção ao outro nas nossas sociedades, com o crónico alastramento das assimetrias sociais, a discriminação do estrangeiro e das minorias, étnicas e religiosas, também com a violência de género e a exclusão social, e com as lideranças populistas, as manifestações xenófobas, os discursos de ódio, e os extremismos nacionalistas e terroristas.
A 2 de outubro, assisti no Porto, no Teatro Rivoli, ao Festival Eurovisão da Canção Filosófica. Retive dois nomes, que destaco, o de José Bragança de Miranda, filósofo e teórico das Ciências da Comunicação, por Portugal, com a “Canção dos Intelectuais”, e Mondher Kilani, antropólogo, pela Suíça, com a “Canção Canibal”.

As canções foram cantadas, de um modo geral, nas línguas de cada um dos países e houve espetáculos do Festival Eurovisão da Canção Filosófica, no país de cada uma das canções. Pôde, pois, vislumbrar-se o sonho de um pensamento europeu, que se exprimiu na riqueza de muita da sua diversidade. De facto, “Pelo sonho é que vamos”, como figurou, em verso, Sebastião da Gama, em 1953.
Em a “Canção Canibal”, Moudher Kilani falou-nos do tempo em que “o ato de devoração pôde constituir um signo de civilização”, com “a identidade a contruir-se por relação à alteridade”. Mas não é pelo advento da globalização que perdemos o gosto à devoração do outro. Pelo contrário, “na era da devoração global” substituímos “a morte de um único indivíduo” pela morte do “maior número de assassinatos”.

Mas eu prestei particular atenção à “Canção dos Intelectuais”, de José Bragança de Miranda. O próprio facto de este filósofo e teórico da Comunicação tomar como tema da sua canção os intelectuais é já de si uma pesada ironia. Porque, é um facto, os intelectuais são, hoje, uma espécie em extinção no espaço público. A tal ponto que o Professor António Coutinho, imunologista, Diretor do Instituto Gulbenkian de Ciência, pôde profetizar o seu passamento. Porque “a filosofia está fadada a desaparecer”, diz numa entrevista à Folha de São Paulo (06 de junho de 2018).
Com remissões para Aldo Leopold, Mário Sá Carneiro, Descartes, Heidegger, Deleuze, Mallarmé e Heraclito, numa bem doseada combinação de filosofia e poesia, Bragança de Miranda faz a defesa do pensamento num hino à terra e ao planeta. Em a “Canção dos Intelectuais”, o pensar faz-se “sobretudo na sua relação com a terra, cavando-lhe meandros fantásticos”.

Porque, como é assinalado no refrão,
“Tudo pensa
A montanha pensa com árvores, rios, lobos e pássaros
A abelha que constrói a colmeia
Também pensa
E a aranha que tece a sua teia
Pensa também.

Os humanos pensam o pensar da montanha
da abelha e da aranha”.
Sem dúvida, estamos “todos ocupados em viver”. E porque “Tudo segue o seu curso, Sem que ninguém o conheça”, “Agora o pensar é clandestino, um complot sem santo ou senha”.
Escrevemos com o corpo. E pensamos com as mãos. “Há quem faça imagens, calcule conceitos, sonhe com emoções, tudo abstrações… subtrações, apenas o pensamento acrescenta e junta”.

O Professor António Coutinho entende, no entanto, que “os cientistas têm um bom método, e os filósofos não têm”, que “a filosofia não progride, enquanto que a ciência nos faz andar para diante”. Ou seja, a filosofia, e com ela as Ciências Sociais e Humanas, é uma espécie de paralítico do Evangelho, pode ver, mas não anda. Em conclusão, António Coutinho entende que “O que é o objetivo da filosofia vai ser resolvido pela ciência, e a filosofia vai passar à história” (Folha de São Paulo, 2018).
Conclui, por sua vez, Bragança de Miranda, em a “Canção dos Intelectuais”, “Nada no pensar é garantido, o cálculo é o trabalho do número, previsão o efeito do medo, sussurro por trás dos muros, saber acolher o acaso… a falha, ‘todo o pensamento emite um lance de dados’, E o real é o dado sempre a rolar”.

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