Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Em busca da estabilidade perdida

Sinais de pontuação

Ideias

2016-03-22 às 06h00

Jorge Cruz

Com o congresso realizado no passado sábado em Barcelos, pode dizer-se que o Partido Socialista superou alguns dos desafios que se lhe colocavam no plano distrital, tendo como pano de fundo as próximas autárquicas de 2017.
Efectivamente, temas como a estratégia política a seguir e a liderança que a protagonizará já ficaram claramente definidos, a primeira no conclave de Barcelos, a segunda começou a desenhar-se nas eleições que o antecederam mas completou-se também nesta reunião magna.

Naturalmente, tal decorre do facto de o congresso da Federação ser estatutariamente o órgão de apreciação política do partido no distrito, órgão que tem entre as suas incumbências o debate das diferentes propostas de orientação política, ou seja, os temas de relevância na geografia da região.
Aqui chegados, os socialistas ainda têm, contudo, algumas pontas soltas na complexa teia que constitui a organização do partido no distrito. E têm porque aqui e ali subsistem problemas e algumas feridas que ainda não foram saradas, enfim, situações delicadas que urge resolver de uma vez por todas.

Não está em causa, como me parece perfeitamente claro, a unidade dos socialistas do distrito em torno dos dirigentes agora eleitos, nomeadamente quando se trata de apoiar as linhas de orientação aprovadas e que visam, entre outros objectivos, a vitória nas eleições de 2017. Desse ponto de vista não tenho quaisquer dúvidas quanto ao empenhamento de dirigentes, militantes e até mesmo dos simpatizantes na preparação das próximas eleições autárquicas. Ou seja, acredito no tal “intenso trabalho de proximidade com as estruturas concelhias” de que fala a moção “Unir e Vencer”, mas reconheço que isso pode revelar-se insuficiente face ao ambiente que se instalou numa ou outra daquelas estruturas.

E é assim porque, como é óbvio, a vitória do Partido Socialista no distrito só pode ser construída com o triunfo na maioria dos municípios. Quer isso significar que o desfecho final estará sempre dependente da soma das partes, isto é, dos resultados que as concelhias conseguirem obter nas urnas. E, nesse particular, não me parece que existam grandes motivos de entusiasmo, bem pelo contrário, mantêm-se fundadas preocupações.

A concelhia de Braga, por exemplo, é uma das maiores do distrito mas é também um caso paradigmático de desatino. Os graves problemas que a perturbaram, decorrentes de terríveis lutas fratricidas mas também da abrupta alteração do seu estatuto, esta em consequência da perda do poder autárquico e da consequente passagem para a oposição - situação que nunca havia experimentado -, tardam em ser solucionados mas, como é óbvio, o calendário eleitoral não se detém.

Como se isto não bastasse, Hugo Pires viu-se obrigado a deixar a presidência da Comissão Política concelhia para assumir funções no Secretariado Nacional do partido, o que também acabou por criar um certo vazio de poder e prolongar a crise no PS de Braga.
De facto, à renúncia de Pires não correspondeu qualquer clarificação interna, bem pelo contrário, a opção escolhida pelos responsáveis locais, de prometer a marcação das eleições até final de Maio, apenas protelou a resolução do problema.

É um facto que os dirigentes socialistas sinalizaram o seu empenho “na procura de um caminho que afirme um PS cada vez mais forte, coeso e mobilizado”, meta que pretendem atingir através da “elaboração de uma lista consensual”. Reconheço que uma solução deste tipo obriga a um trabalho moroso com uma multiplicidade de contactos, no sentido de auscultar a pluralidade de opiniões, bem assim como a complexas negociações, não apenas para encontrar o rosto da “nova” imagem do PS de Braga, mas também para que as diferentes correntes de opinião possam sentir-se devidamente representadas nos futuros órgãos concelhios. O problema, como já sublinhei anteriormente, é o tempo. Tempo que, por um lado, começa a escassear tendo em vista a próxima batalha autárquica. Tempo que, por outro lado, e do ponto de vista da duração do clima de “guerra”, aberta ou latente, entre correntes ou facções, pode e deve ser considerado demasiado excessivo.

É certo que os contactos para a escolha dos cabeças de lista do PS às freguesias já estarão bastante avançados existindo mesmo previsões de que os líderes das candidaturas possam estar definidos na altura das eleições para a concelhia. Todavia, esta probabilidade não afasta a questão de fundo - a pacificação da concelhia. Esta, sim, apresenta-se como a tarefa mais premente e de maior relevância para um partido que, muito justamente, almeja reconquistar a confiança dos eleitores.

Será, pois, a partir da clarificação na concelhia que o PS de Braga terá a desejada e necessária serenidade para, através da nova comissão política, pôr em marcha o processo de escolha das candidaturas autárquicas do próximo ano. A expectativa é de que a partir dessa altura o partido possa recuperar pela união, pela militância e pelo envolvimento empenhado de todos os socialistas, o hiato de incertezas e de instabilidade em que se deixou envolver. O que será uma boa notícia quer para o PS e seus militantes e simpatizantes, quer para a própria democracia que, em Braga, dá sinais inquietantes de padecer de moléstia grave.

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