Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Elementos fundamentais numa cidade

Uma carruagem de aprendizagens

Ideias

2017-02-13 às 06h00

Filipe Fontes

Há três elementos fundamentais numa cidade: o território, as pessoas e a actividade gerada entre as mesmas. E são estes três elementos que estruturam toda a vida e produção da cidade, seja política, económica ou cultural.
Como tal, parece consensual que a cidade é um esforço comunitário e um resultado colectivo que se rentabilizam quanto maior (e melhor) for a identidade das pessoas com o território que habitam.
O espaço público é, por excelência, o espaço de (maior) expressão comunitária e aquele que, sendo de todos, é nele que a reunião das pessoas e sua comunhão em torno de um “bem comum” melhor se concretiza.

Perante esta realidade, a importância do espaço público na qualidade de vida das pessoas é incontornável, sendo o usufruto comunitário medida certa da assertividade e qualidade do seu desempenho.
Na certeza de que se vive um momento de constante e profunda mudança, reconhece-se que, hoje, o paradigma do espaço público - a praça, o largo, … - se encontra em crise (no sentido da sua exclusividade), concorrendo, actualmente, para este mesmo espaço público realidades tão diversas como um centro comercial, uma auto-estrada e, no limite, os próprios instrumentos de tecnologia e espaço cibernético.

Na realidade, este mesmo espaço público possui uma matriz, dir-se-á, sociológica que o faz totalmente dependente da condição de urbanidade e modo de vida das pessoas, sendo, por isso mesmo, mutável e metamorfoseado na justa medida das mudanças societais que o tempo vai revelando.
Dir-se-á que é fruto das circunstâncias e que é incontornável. Talvez. Mas também não deixará de ser sinónimo de perda de identidade e identificação das pessoas com o lugar que habitam e, sobretudo, da (perda da) qualidade das relações comunitárias. Ou seja, não será proporcional a perda da relevância do espaço público à mudança das interacções sociais que se vai realizando e à respectiva uniformização e “impessoalização”? (Talvez pecando por exagero e simplificação, antes uma “esplanada de café”, também ela um exemplo de espaço público, era palco de encontro entre pessoas e conversa. Agora também o será mas com as pessoas “agarradas” aos telemóveis, socializando-se “via wi fi”)

Por outro lado, este “novo tempo”, que tudo facilita e tudo movimenta, possibilita viver, trabalhar e comprar em locais muito diferentes e, não despiciendo, fora do contexto da cidade de origem ou autóctone. E esta possibilidade (que a facilidade de crédito bancário, a comunicação fácil, o micro ondas, a generalização do automóvel tão acentuaram), podendo permitir a concretização de um sonho de uma vida melhor, favoreceu a escolha do local para viver em função de critérios materiais de conforto e autónomos da emoção da proximidade familiar ou identidade cultural e urbana. Ou seja, permitiu escolher pela melhor oferta, não pelo sentido de pertença. Transformou a noção de terra em palavra solo.

Tudo isto contribui para, hoje, a perda de significado do espaço público, importando (é convicção) regressar ao âmago do espaço público - espaço de referência e pertença a uma comunidade. E, portanto, de todos sem excepção.
E tal significa regressar às raízes, devolvendo a este espaço uma carga polarizadora e referenciadora de vida comunitária.

É convicção de que tal dependerá de cada um de nós e da mudança societal que continua a confirmar-se cada dia que passa. Mas também não é menos verdade que, tanto como grandes acções, pequenos (aparentes) gestos como (a título de exemplo) a toponímia ou elementos físicos históricos caídos em desuso ou desvalorização são factores passíveis de um contributo expressivo para tal, esbatendo “a cidade como um conjunto de desconhecidos, o espaço onde é rotina encontrar pessoas desconhecidas e em que a proximidade física coexiste com a distância social (INNERARITY, Daniel) e afirmando a necessidade inata deste espaço público possuir identidade. E nome próprio.
Será possível?

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