Correio do Minho

Braga,

Eleições autárquicas

A vida não é um cliché

Ideias

2017-04-10 às 06h00

Filipe Fontes

Há momentos singulares para a cidade. Mesmo ocorrendo em ciclos, repetindo o processo, há momentos que, pelo seu significado e impacto na vida da comunidade, são, incontornavelmente, determinantes para o futuro dessa mesma cidade.
As eleições locais, denominadas de autárquicas, são um desses momentos que, muito em breve, se repetirá porque ciclo de quatro anos se fechará…
Porque reflectem um exercício - simultaneamente dever e direito - democrático de escolha dos seus representantes com poderes efectivos na gestão e transformação do espaço que habitam, as eleições locais representam um momento de síntese entre o que a cidade conseguiu ser e construir, o que a cidade é e, sobretudo, o que a cidade quer ser e projecta para ser.
Dir-se-á que é um momento de introspecção na reflexão, de discussão nas causas e efeitos e de crítica propositiva no “olhar para amanhã”.

Porque se acredita que esta é a realidade, é convicção que importa “olhar para a mesma” e reflectir, não sobre os candidatos em si mesmo (a “figura”) ou as ideias e projectos em si mesmo (as incontornáveis “propostas”), mas sobretudo reflectir sobre a importância de saber julgar para melhor escolher, saber escolher para depois exigir com legitimidade reforçada. Porque, de facto, as eleições implicam estes três saberes. E “saber” usá-los em prol próprio e da comunidade é um belo exercício de cidadania que todos devem cultivar e perseguir.

Saber exigir significa definir que características queremos para os nossos representantes (independentemente da figura de político profissional ou de carreira, independente afirmado, cidadão que se balança para a política ou outros). Esta natureza de representante importa mas, fundamentalmente, importa procurar e valorizar aquilo que o exercício do poder (porque é disso que, após dia de eleições, se trata) implica: reunião de conhecimento e experiência para trabalhar, equilíbrio na ponderação, firmeza na decisão. Todavia, saber exigir significa (dir-se-á a montante do próprio candidato) obrigar (no bom sentido da palavra) que os candidatos a nossos representantes digam o que pensam, o que querem e projectam para a cidade.

Que apresentem, descrevam, expliquem e partilhem a sua visão para a cidade e a respectiva forma de concretização. Ou seja, implica valorizar (enquanto eleitores) o programa eleitoral e dele fazer elemento estrutural da selecção electiva. Porque é este programa eleitoral que expressa e dá corpo a uma vontade de representação da comunidade. Porque é este programa eleitoral que, tantas vezes, é subvalorizado por quem se apresenta a votos, tantas vezes é relativizado (dir-se-á mesmo esquecido) por quem se apresenta a votar.

E, ao ser elemento síntese de uma candidatura, o seu rosto e conteúdo, este programa eleitoral é a plataforma que albergará a visão sobre a cidade e como materializa-la fisicamente. É o compromisso escrito e declarado do(s) candidato(s). E, por isso, tão determinante: um compromisso entre as partes em que um assume e se compromete a realizar. O outro aceita e se compromete a colaborar.

Não existe meio-termo. Poderá, depois, a participação pública ajudar a aprofundar alguns temas e promover ajustamentos. Poderão, depois, acontecimentos não estimados justificar desvios e acertos. Mas nunca conseguirá suprimir a falta de um programa eleitoral, ultrapassar o compromisso escrito assumido.
O programa é documento estrutural. E fundador de uma actuação futura. Que deve ser valorizado por quem se candidata. Que deve ser exigido por quem vota. E que deve procurar a qualidade. E a clareza.

Tantas vezes subalternizado, tantas vezes depósito de todas as intenções e projectos (numa pura soma aritmética), tantas vezes esquecido e nem alvo de uma leitura simplificada, o (bom) programa eleitoral é documento que permitirá conhecer e ponderar para depois escolher e exigir, possibilitando, no fim, julgar com o efeito desejado!

(continua)

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