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2013-06-21 às 06h00

Margarida Proença

Os últimos acontecimentos no Brasil e na Turquia colocam questões interessantes. Note-se que em ambos os casos a explicação não é apenas a crise económica global, ou as medidas requeridas por instituições internacionais para controlar a dívida pública.
Na Turquia, os últimos anos têm sido marcados por um crescimento significativo. Em 2010, o PIB em termos reais, e portanto sem ter em conta possíveis efeitos de uma subida generalizada dos preços, isto é da inflação, subiu uns notáveis 9,2%, e em 2011 8,5%, e as desigualdades na distribuição dos rendimentos decresceram. As indústrias automóvel e eletrónica, ultrapassaram a indústria têxtil em termos de competitividade no mercado externo. O petróleo flui por uma pipeline construída desde Baku, no Azerbeijão à média de 1 milhão de barris por dia, e estão projetados outros pipelines para o gás natural. O rácio da dívida pública face ao PIB é inferior a 40% (nem vale a pena comparar com Portugal, para não ficarmos já todos deprimidos…), mas por outro lado mantêm uma taxa de desemprego elevada (9%), principalmente nos jovens.
O Brasil representa nos últimos anos uma história de sucesso dos chamados países emergentes. Em 2010 a taxa de crescimento foi a mais alta dos últimos 25 anos (7,5%). Um país imenso, com sectores muito desenvolvidos do ponto de vista tecnológico, com uma expansão notável nos mercados mundiais, tem sido repetidamente sublinhada a diminuição na desigualdade social gritante que o caracterizava. A percentagem de pessoas abaixo da linha de pobreza desceu dos quase 42% em 1990 para 21,4% em 2009, em larga medida em resultado de políticas redistributivas que se traduziram por exemplo num subsídio dado às famílias mais pobres. A emergência de uma classe média no Brasil está aliás muito bem retratada na telenovela Avenida Brasil, ainda que de uma forma um tanto caricatural. Em 2011, o Brasil tornou-se a sétima economia do mundo, destronando a Inglaterra. No entanto, a inflação interna e a deterioração da economia mundial esfriaram muito o crescimento, que em 2012 foi apenas de 1,3%.
As pessoas, os consumidores, as estruturas políticas destes países acreditaram que tudo era possível; o azul do céu está sempre a um segundo do sonho. E os governantes tendem sempre a ler nas entrelinhas apenas o que lhes interessa ler, o que corres-ponde às suas opções e
preferências individuais. Na Turquia acrescer ou acelerar um processo de islamização, no Brasil reforçar os investimentos em construção e alimentar o gosto pela festa, traduzido também em termos de futebol. No fundo, o sentido é o mesmo - conformam-se as decisões de acordo com a visão que, individualmente, se tem do que é uma boa política para a sociedade como um todo. E das experiências do passado tiram-se notas para o futuro. Dir-se-á - mas então isso é do que trata a democracia. As pessoas, os partidos dizem o que pensam, demonstram o que fizeram, e os cidadãos votam de acordo com as escolhas que eles próprios fizeram.
Pois é. Ou não. As mudanças nas expetativas em termos económicos são muito importantes, mas também os valores públicos e o desejo por viver uma vida melhor, mais interessante, com mais experiências, com mais prestigio social, a qualidade da vida que se tem por referência ao que se vê na televisão ou na internet etc.
Os alunos da Turquia que saem para universidades de outros países, bem como tantos outros que o não fazem, preferem a diversidade de estilos de vida, a abertura , em vez de uma dominância religiosa que imponha restrições comportamentais sé-rias. E a ameaça de o fazer confronta com uma população que vive agora melhor do que sempre, e para quem a ordem de preferências se alterou.
No Brasil, as pessoas aperceberam-se que a inflação e a subida dos custos de transportes, entre outros, lhes criava problemas sérios face às expetativas que tinham criado. E que no contexto do processo de crescimento e desenvolvimento, é mais importante ter estradas, e hospitais e escolas do que ter estádios e festas. E no país do samba e do futebol, saíram para as ruas a dizer “não” às escolhas que determinarão o seu futuro. Independentemente de quanto estudos de avaliação de impacto venham a ser feitos sobre as despesas associadas aos campeonatos e aos Jogos Olímpicos no Brasil , de quantas conclusões acerca dos milhões que serão investidos na economia por essa via, na verdade as pessoas têm: é uma questão de prioridades.
No atual contexto de crise económica grave, e duradoura, com empobrecimento geral da população portuguesa, esse vai ser de facto o grande desafio, nomeadamente dos próximos governos autárquicos. Escolher o que é importante. E que tudo indica é diferente do que foi nos últimos anos.

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