Correio do Minho

Braga, sábado

Ela...

Investir em obrigações: o que devo saber?

Conta o Leitor

2013-08-25 às 06h00

Escritor

Carlos Ribeiro


Num dia qualquer de Janeiro entrou pela porta dentro do escritório olhando para todo o lado sem conhecer ninguém. Parecia perdida, mas determinada e consciente do que vinha fazer. Alta, jovem e bonita, vestida num estilo simples e elegante, sentou-se num dos cadeirões à espera que a atendessem. Num primeiro olhar atento, por cima dos meus óculos graduados, consegui perceber o seu nervosismo, a sua impaciência, a sua vontade de não querer estar ali a ser alvo do meu olhar curioso, bem como dos meus colegas residentes.

Finalmente, o meu chefe ficou livre e mandou-me chamá-la para a atender. Como não a conhecia, confesso que estava curioso sobre o que trazia uma mulher tão atraente ao meu local de trabalho. Ainda tentei deixar-me estar quando a levei ao gabinete, mas não tinha argumentos para ficar a assistir à reunião pelo que, com um sorriso carregado de charme, saí com um simples “prazer em conhecê-la”. Nesse dia longínquo estava longe de imaginar que aquela mulher linda se iria transformar no grande amor da minha vida. Talvez o único…

Descobri no dia seguinte ao que ela vinha. Um emprego na organização. Naturalmente foi aceite, embora durante um certo período de licença de parto de uma colega mais velha. De qualquer forma, pude conhecê-la. Dia a dia, ela foi-se insidiando dentro de mim, com olhares carregados de erotismo e promessas de amizade eterna, com uma voz doce e um riso cheio de alegria e ingenuidade. Os mesmos gostos, a mesma música, a mesma paixão pelas coisas simples da vida. Devagar fui descobrindo que era uma mulher diferente, muito distante da banalidade, dos convites fáceis e encontros ocasionais a que eu estava habituado. Algo nela era profundo, enraizado em princípios e valores que em nada se coadunavam com a sua aparente e disponível simpatia. Em nada era brejeira, incómoda ou chata. Pelo contrário, era discreta e falava muito menos do que ouvia. Nos inúmeros almoços que fizemos juntos, nasceu uma cumplicidade única entre nós, não obstante a abismal diferença de idades ou a profunda experiência de vida que tínhamos. Eu olhava-a surpreendido com a sua clareza de espirito, com a sua visão doce e pura da vida, com a sua certeza de que a felicidade era uma questão de tempo e oportunidade, mas certa. A sua permanente negação à mediocridade, às pessoas sem caracter, aos erros evitáveis e à mentira, transportaram-me para um mundo e uma realidade antagónica a tudo o que eu conhecia.

Tanto como respirar, apaixonar-me por ela foi inevitável. Aconteceu, simplesmente. Claro que era uma parvoíce monumental! Eu sabia, eu tinha a certeza que jamais uma mulher tão linda, tão perfeita alguma vez pudesse se apaixonar por mim. Até porque eu sabia que ela tinha uma relação segura, com um homem que conhecia há anos e quem amava. Enfim, era mesmo uma utopia imaginar que uma mulher jovem, no inicio da sua vida profissional e pessoal, cheia de planos e projetos de futuro fosse olhar para mim de uma forma diferente que a de colega de trabalho e, eventualmente, de um amigo.

O tempo passou e os sentimentos que eu me esforçava por renegar, em vez de esmorecerem foram aumentando, ganhando formas reais e possíveis. Caramba, eu não era assim tão velho! Ou era, e estava só a ser um lírico? Claro que sim, um lírico e um sonhador diurno, nada mais… Nada nela me fazia ter esperanças de ser correspondido. Nada em mim me fazia ter coragem de assumir o que sentia. Nem na troca constante de mensagens, no telemóvel ou no portátil, me faziam acreditar em algo mais do que uma amizade profunda, mesmo sentindo a tensão, a paixão que rondava no ar quando estávamos juntos, quando nos tocamos acidentalmente nas mãos ou quando nos beijávamos na face nos momentos das despedidas. Nada, em momento algum, nasceu a oportunidade de lhe confessar a minha paixão por ela. Eu sentia-me nas nuvens com ela mas, simultaneamente, um guardião eterno do meu segredo. Imaginava-a comigo em todos os lugares, a fazer tudo o que dois seres apaixonados fazem, livres e alegres, confiantes no perdão dos mortais e na compreensão de Deus.

Um dia, antes de uma viagem que ela tinha planeado há meses com o namorado para uma cidade estrangeira, aconteceu. Num fim de tarde de Fevereiro, mais de um ano depois da primeira vez que a vi, num momento de depressão minha e de uma ansiedade incontrolável pela partida dela, disse-lhe… “Amo-te”! Nos instantes que se seguiram, fiquei parado no tempo, receoso da resposta dela mas ao mesmo tempo aliviado por ter conseguido libertar-me da tensão que me impedia de viver! Agora, não havia como voltar atrás… sujeitando-me ao ridículo da situação, da mais que provável, embora simpática, resposta negativa dela, disse-lhe o que sentia uma e outra vez…

Nos olhos límpidos dela, não vi gozo nem grande surpresa pelas minhas palavras. Será que eu estava a sonhar acordado mais uma vez, ou eram mesmo verdadeiras aquelas duas lágrimas que surgiram espontaneamente nos olhos mais doces que conheci na vida? Eram verdadeiras! Sem uma palavra, segurou-me o rosto entre as suas delicadas mãos e beijou-me na boca… Uma e outra vez com força, paixão, loucura…

Nessa noite, deitado sozinho na minha cama, nasci outra vez…
Por ela…

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