Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Efemérides

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Ideias

2017-03-28 às 06h00

Jorge Cruz

Foi há 60 anos que um punhado de líderes europeus se sentou à mesa para firmar aquele que ficou conhecido por Tratado de Roma, documento constituinte da Comunidade Económica Europeia, mais tarde União Europeia. Nesse longínquo ano de 1957, o documento foi subscrito por seis países - Itália, França, República Federal da Alemanha, Bélgica, Holanda e Luxemburgo - número que foi crescendo até aos actuais 28 membros, embora seja expectável a sua gradual diminuição.
A celebração do aniversário foi ensombrada pelo divórcio decorrente do chamado Brexit, que teve como consequência mais visível a ausência de Theresa May, pelo que a renovação do compromisso europeu já só foi subscrita por 27 países. Mas adivinham-se mais discórdias, maiores tensões, uma vez que a actuação errática encoraja os nacionalismos e aumenta exponencialmente o número de eurocépticos em todo o espaço europeu.
Cientes do problema e dos riscos que daí advêm, os actuais responsáveis políticos tentaram transpor para o “novo” Tratado de Roma algumas mensagens de unidade e de esperança, do género Europa mais forte e unida, mas persistiram na ideia de avançar, agora não a várias velocidades, mas a “ritmos diferentes”. Esta tentativa mais ou menos desesperada de apaziguar alguns países parece insuficiente e não acredito que a retórica empregue venha a alterar substantivamente a opinião dos eurocépticos, cada dia em maior número.
Constata-se, na realidade, um descontentamento generalizado pela forma como o projecto europeu tem sido conduzido desde há uns anos. O próprio presi- dente do Parlamento Europeu, aliás, reconheceu que “muitos erros foram cometidos” e que “a nossa União está ainda incompleta, muitas vezes longe dos proble- mas, dividida, ineficaz, demasiado burocrática.” Será também por essa razão que António Tajani se manifestou “preocupado com o desafecto crescente que isso provoca em muitos cidadãos”, tanto mais que “não podemos avançar sem reaproximar a Europa das pessoas”. “Não estamos cansados da Europa, mas queremos que ela funcione melhor”, sublinhou, em jeito de alerta, o presidente do Parlamento Europeu.
Claro que a prossecução do projecto europeu assume particular relevância, qualquer que seja o ponto de vista em análise, embora seja essencial garantir à partida uma série de condições, designadamente a adopção de um conjunto de políticas, que possam, de facto, ir ao encontro dos problemas e dessa forma aproximar a Europa das pessoas. A questão, no entanto, também se prende com a qualidade dos protagonistas e, desse ponto de vista, o panorama é francamente desanimador porquanto não se vislumbram estadistas da têmpera daqueles que afirmaram a Europa como espaço privilegiado de liberdade, de diálogo, de paz e de desenvolvimento.
Como se sabe, nos últimos anos as crises no espaço europeu têm sido quase constantes. Se não vejamos: neste momento, e pela primeira vez desde a criação, um dos membros, o Reino Unido, está num processo de saída; antes foi a crise dos refugiados, a crise grega, os ataques terroristas, a eleição de Trump e o perigo que tal representa para a Europa (pretende a desintegração da União), o crescimento dos populismos no espaço europeu e o aumento dos eurocépticos entre os cidadãos da Europa. E ainda temos “pendente” a questão das relações com a Turquia…
O projecto europeu vive, como se constata desde há anos, uma grave crise de identidade e até de legitimidade, bem patente, aliás, no decréscimo de confiança que se verifica: há 10 anos metade da população confiava na União Europeia e hoje apenas um terço mantém a confiança. Nestas circunstâncias, o mínimo que se poderá dizer, e já com uma certa dose de optimismo, é que o futuro da União Europeia se apresenta bastante vago, com tonalidades demasiado cinzentas e a sobrevivência do projecto político só será efectiva se entretanto houver coragem de introduzir as mudanças que a situação impõe. Mudanças que passam por uma visão mais solidária, mais desenvolvida, que privilegie os cidadãos e não o capital, como tem acontecido.


Falando ainda de efemérides, não quero deixar de dedicar algumas palavras à AGRO, a principal feira agrícola do Noroeste peninsular, que se realiza anualmente em Braga, e que agora comemorou meio século de existência.
Ao contrário do que sucede com a UE, a AGRO apresenta-se hoje com um horizonte extremamente mais risonho, deveras animador mesmo, uma vez que, conforme ficou bem patente, quer na cele- bração da efeméride quer na 50.º edição que encerrou no passado domingo, este certame alcançou uma tal pujança a qual, por si só, é garantia do seu futuro.
Uma feira agro-pecuária que conseguiu ultrapassar com êxito as inúmeras e complexas dificuldades, endógenas e exógenas, que se lhe depararam ao longo dos anos - de que os problemas decorrentes da Política Agrícola Comum até nem foram os mais complicados - e que, mesmo assim, se afirmou nos planos nacional e internacional, tem todas as condições para se manter no lugar cimeiro a que se alcandorou. Acresce que existe a expectativa, a partir da próxima edição, de poder utilizar as instalações já totalmente remodeladas o que, a acontecer, corresponderá à oferta de um recinto mais moderno, com mais conforto e, consequentemente, com melhores condições.

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