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Ecos de uma crise

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Ecos de uma crise

Ideias

2020-06-05 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

O Instituto Nacional de Estatística criou uma página especial, de acesso a informações de natureza económica, sobre o impacto do Covid-19. A última síntese foi publicada a 2 de junho, portanto já esta semana. As boas notícias, primeiro – aparentemente, a confiança dos consumidores está a dar sinais de uma clara recuperação, indicando que a economia está a começar a responder novamente. Parte do incremento deveu-se ao comportamento dos consumidores on-line; este tipo de procura cresceu, traduzindo a adaptação e abertura dos consumidores, e que contou também com o incentivo de muitas empresas disponibilizando transporte. Trata-se de uma alteração que se vem tornando cada vez mais clara, mas que se baseia na confiança. Muitas empresas ainda não o perceberam, e mantêm comportamentos oportunistas não cumprindo prazos nem justificando atrasos, não respondendo a reclamações, etc. O consumidor é agarrado, paga em avanço, e fica sem o produto – até que dê jeito ao vendedor fazer a respetiva entrega… E é pena, porque esta seria uma forma de ultrapassar, pelo menos em parte, as quebras no mercado a retalho. E vai ser preciso consumir mais.

As perspetivas das empresas começam também, lentamente, a melhorar, ainda que indiciando forte preocupação com a procura global. Mas estas indicações têm de ser entendidas de forma cautelosa, porque a queda foi tão significativa, tão abrupta, que não é preciso muito para encontrar melhorias relativas… Os preços baixaram, e provavelmente assistir-se-á ainda durante algum tempo a esse movimento, as empresas tentando obviamente incentivar o consumo; vale a pena aproveitar, porque a inflação virá.

Durante muito tempo, queixamo-nos do turismo que nos invadia as ruas e que fazia aumentar o preço das habitações, que desvirtuava a nossa cultura, etc, etc. O impacto setorial do Covid-19 foi terrível: as dormidas de residentes, ou não residentes, caíram entre 92,7% e 98,3%. Desapareceram. A maior queda no número de dormidas, em estabelecimentos turísticos, foi exatamente dos ingleses, talvez o mercado de maior relevância para o setor em Portugal. Quando se olha para uma diminuição de 99,3%, torna-se real o impacto, impressionante. Os outros países andam por lá perto. Compreende-se que mais de 80% dos hotéis e outros estabelecimentos de alojamento tenham estado encerrados. No Norte do país – apenas como exemplo, porque o quadro é geral – mais de 73% dos mesmos foram confrontados com cancelamentos de reservas que tinham sido feitas. As fronteiras com Espanha abrirão a 22 de junho, haja esperança; mas os cancelamentos respeitam julho e agosto, na maioria dos casos …

E dificilmente a procura portuguesa alterará este quadro de forma significativa, uma vez que também neste mercado os cancelamentos foram muito elevados. Por quebra nos rendimentos, e ou por medo, parece que este verão muita gente optará mesmo por ficar em casa.
Entretanto, a taxa de desemprego situava-se, em abril, nos 6,3%, e a subutilização do trabalho - desempregados, subemprego e inativos - aumentou mais de 12%. A vulnerabilidade é obviamente muito mais elevada nos setores que mais sofreram com o impacto do Covid 19, e tanto mais significativa quanto mais baixos são os níveis de formação académica e profissional e os níveis salariais, e mais precários os contratos. Finalmente, a prevalência do teletrabalho, é em geral baixa por toda a União Europeia, mas é-o em particular nos países do Sul. Um estudo acabado de publicar pela Comissão Europeia distingue entre a Holanda ou a Finlândia onde atingia , antes da pandemia , um indicador de 40 e a Itália, Espanha ou Grécia, onde não chegava sequer aos 10, e isso explica também a assimetria nas respostas que foram dadas nos países.

Neste contexto, o impacto da pandemia é especulativo, na minha opinião. Provavelmente, as empresas vão voltar aos métodos de trabalho tradicionais, e às formas tradicionais de responderem à procura que lhes é dirigida, mantendo a sua dependência das cadeias globais de valor. As políticas paliativas atuais terão mesmo que ser integradas em políticas estratégicas e de investimento de muito maior alcance , permitindo e incentivando a mudança.

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