Correio do Minho

Braga, terça-feira

Economias e líderes fracos

Confiança? Tínhamos razão.

Ideias

2011-11-04 às 06h00

Margarida Proença

Com esta crise, desde há pelo menos dois anos, que parece que entramos numa montanha russa, com altos e quedas repentinas. O que aconteceu na Grécia demonstrou, para quem disso ainda tivesse alguma dúvida, como estamos todos interligados e no mesmo barco. A decisão de fazer um referendo neste momento e a demissão dos responsáveis pelas forças armadas gregas lançou a maior confusão nos mercados e provocou fortíssimas perdas nos bancos.

Em Portugal, o BCP anunciou prejuízos no terceiro trimestre deste ano na ordem dos 29 milhões de euros, justificados pelo provisionamento da dívida grega ; o BES reportou também prejuízos neste trimestre. Na quarta feira, e já depois do anuncio do referendo na Grécia , a bolsa de Lisboa fechou a perder , penalizada pela banca (pelo menos o BPI, o BCP e o BANIF registaram perdas mais ou menos significativas), e na quinta feira todas as bolsas na Europa abriram no vermelho.

Entretanto, os avisos de que a ajuda á Grécia ficaria suspensa e a expectativa de uma possível queda do governo grego, a todo o tempo, inverteram a situação , ou seja os investidores acreditavam ontem no que não acreditavam anteontem, até porque o ministro das finanças grego veio a público afirmar que estava contra a consulta popular.

Tudo está de facto interligado e interdependente, sendo as economia fortemente afectadas por decisões de carácter político e comportamentos subjectivos. A incerteza e a instabilidade têm normalmente um custo muito, muito elevado nos mercados.

Cada vez mais a crise actual se vai caracterizando pelo reforço de decisões estritamente políticas, que colocam na prateleira boa parte dos ensinamentos dos economistas. Definitivamente que a responsabilidade do que se vai passando, nomeadamente na Europa, não é culpa dos economistas mas dos políticos que vão tomando as decisões que mais lhes importam a eles. E isso é verdade também para quem manda no Banco Central Europeu , que se preocupa exclusivamente com a estabilidade dos preços, e não com a estabilidade financeira; conforme chama a atenção DeLong , a história mostra-nos que é fundamental que exista uma instituição central financeira que garanta a confiança nos mercados e o cumprimento dos contratos, funcionando ainda como um “emprestador” de último recurso.

Trata-se de fazer aplicar uma verdadeira regulação e coordenação dos mercados na Europa , até porque inúmeros estudos têm demonstrado que a moeda única para funcionar precisa , entre outras coisas, exactamente disso. Mas pode ser que com o novo presidente do BCE, Mario Draghi, passe a passar a existir maior e mais clara intervenção do banco central europeu; dizem que a esperança é a ultima coisa a morrer…

Sem uma cooperação económica reforçada, a construção europeia e a moeda única correm riscos muito sérios - e a Europa tem uma longuíssima história de resolução final dos problemas por via de guerras.

De acordo com o Financial Times de 31 de Outubro, o primeiro-ministro grego decidiu avançar para um referendo depois de lhe ter sido confirmado um novo empréstimo na ordem dos 130 biliões de euros e que envolvia ainda um corte de cerca de 50% da dívida, em condições que ainda teriam de ser acordadas.

Dos 130 biliões, 30 biliões iriam servir para compensar os investidores em títulos do tesouro do prejuízo que terão por causa do corte dos 50% e outros 30 biliões vão para a recapitalização da banca. Sobram assim 70 biliões de euros , que se vão somar aos 42 biliões apenas que sobraram do ultimo empréstimo de 110 biliões que receberam há bem pouco tempo.

Só a dívida grega anda lá pelos 350 biliões de euros… Por aqui se pode inferir também que, embora necessária esta política de desvalorização interna que está a ser implementada em Portugal, num quadro de austeridade, pode de facto não ser suficiente - se não houver crescimento económico, se a confiança dos agentes económicos se desmoronar por completo, se os mercados na Europa continuaram a ser marcados pela incerteza, se os problemas do euro continuarem, se os líderes políticos continuarem a actuar como até agora.

Ter bons líderes, capazes, fortes, criativos e intervenientes, que não sejam autocratas, sempre foi fundamental ao longo da história. Não é essa a característica dominante dos actuais líderes europeus. Longe vai o tempo em que na presidência da Comissão Europeia estava um Jacques Delors ; o papel desempenhado pelo actual presidente, Durão Barroso, torna-se quase desaparecido face aos interesses da Alemanha e da França, e dos interesses particulares na política interna de cada país de Angela Merkel e de Sarkozy que lhes permitirá manterem-se no poder.

Líderes que baseiam as suas decisões em termos de interesses puramente individuais tendem a esperar que os outros sigam a mesma estratégia, são mais receosos, não reflectem as motivações e preocupações sociais e contribuem pouco para o bem-estar de todos. Isto não é só verdade para as instituições supra nacionais - também o é para os países, como para as organizações, sejam elas públicas ou privadas. E as economias decididamente sofrem com eles.

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