Correio do Minho

Braga, quarta-feira

E se a Troika nos mandar lixar?

Da falta que as tentações nos fazem

Ideias Políticas

2012-09-25 às 06h00

Hugo Soares

O povo saiu à rua. Vivendo a festa da democracia, os cidadãos manifestaram-se de forma calma e ordeira. Tirando os casos pontuais que são conhecidos (mas esses devem ser vistos à luz de um conjunto de pessoas que vivem à custa do caos e com os quais devemos ser impiedosos ao censurar os seus comportamentos), Portugal deu mostras de viver uma democracia consolidada e estruturada que a todos deve orgulhar.

O mote para as manifestações que encheram as principais cidades do País não foi, estou certo, o motivo pelo qual os portugueses demonstraram o seu descontentamento. Reporto-me ao ‘Que se lixe a Troika, Queremos a nossa vida de volta’. Importa lembrar que não foi a Troika que nos invadiu - fomos nós que chamamos a Troika. Importa informar que é à custa da Troika que o Estado se consegue financiar para ter capacidade para responder às suas obrigações mais básicas: pagar salários, pensões, prestações sociais, manter hospitais, escolas e tribunais abertos, etc. Importa, porque nunca é exagerado, frisar o abismo que o País avistava a dois meses de distância quando Teixeira dos Santos anunciava que ia deixar de haver dinheiro.

É por tudo isto que digo que os Portugueses não querem que se lixe a Troika. As consequências de a Troika “se lixar para Portugal” eram tão dramáticas e catastróficas que pensar nelas me causa agonia. É verdade que, à custa das metas da Troika, a classe média pode para o ano ficar sem o equivalente a um salário (público e privado), mas as consequências de não cumprirmos era não haver dinheiro para salário algum.

Então porque saiu o povo à rua? Tenho para mim que Portugal saiu à rua porque está cansado dos políticos (de todos!), vendo nos atuais governantes os culpados de tudo o que nos trou-xe até aqui. Não se trata do alheamento das pessoas da política (esse considero que não existe - cada vez mais as pessoas se preocupam com o que se passa à sua volta), antes com os agentes políticos que representam os sacrifícios, os cortes e a austeridade.

E este descontentamento generalizado deve fazer reflectir. Não quero com este texto abordar a bondade das decisões do actual governo - isso a seu tempo julgarão - embora defenda intransigentemente o caminho seguido e as opções tomadas (que evidentemente não estão e nunca estarão isentas de erros!). Quero, isso sim, procurar reflectir as consequências levadas ao extremo da falta de confiança dos portugueses na classe política e nos partidos.

Não há democracia que não seja a representativa e plural. Hoje, felizmente, Portugal vê o nascimento de uma nova classe política que quer transformar o país, sem olhar a tacticismo político e partidário, mais preocupada em fazer, do que em comunicar, mexendo em todos os interesses instalados.

Governantes que querem acabar com todas as injustiças que foram cometidas nas últimas décadas, mas que só agora o povo as reclama. Aliás, mesmo quem as cometeu também as reclama agora, o que não deixa de ser caricato. Mas se assim é, porque é que o povo saiu à rua?
Porque não acredita na classe política.

Daqui a um par de anos quando recuperarmos a nossa soberania económica e financeira, quando Portugal perceber que é um País mais limpo de interesses, quando sentir os resultados das transformações que estamos a fazer na sociedade portuguesa, daqui a um par de anos o povo vai sair à rua. Agradecendo a uma nova geração de políticos.

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