Correio do Minho

Braga, sábado

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E o burro sou eu?

Viagem a Viena

E o burro sou eu?

Ideias

2020-04-03 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Convoco a máxima popular de Scolari. No trilho da última crónica, até poderia recorrer a termo da mesma lavra, este uso comum. Quem nunca descolou os lábios para dizer paranóia?
Sim, paranóia serviria lindamente, por de tal limiar nos aproximamos. «Não toque, por causa do vírus», diz-me o vendedor de hortícolas do mercado. Que era ordem do fiscal da câmara, e ele não queria ser multado. Manada de ervilhas-de-quebrar que levantaria e ensacaria. Enfim! Compro o que mando, servido como figurão fino. Pago. Compadeço-me do meu produtor-vendedor favorito, que amedrontado está. Pergunto-lhe, a que unha estaríamos nós da extinção, se em cada dedada ficasse um assassino impiedoso.

Depois é um senhor, que há de ser letrado e cientista, que nos diz, a microfone imune, que deveríamos andar de máscara e viseira, visto que este bicho, como o do sarampo e o da tuberculose, com estágio de Chapitô, terá artes de ficar no ar, como aranhiço de teia, e que por todos os buraquinhos passa do tapa-bocas… eu saía-me um palavrão, mas não há leitor que não o deite de seu génio.
De quantos cuidados precisamos? Não se dará o caso de haver por aí muito chefinho de cabeça de alfinete, que por delírio hipocondríaco, por espiritualidade claustrofóbica, nos quer onde ele se sente como peixe na água, campânula em que outrem definhe por falta de ar? De quantos profetas da desgraça, exegetas de apocalipses de cordel, precisamos nós para afrontar um vírus de gancho, que mata, na realidade, que amedronta, certamente, que por graça extensiva se estica e desconchava a economia, como se vê e pior verá?

Diz o Costa, do alto do seu castelo, que vai ser preciso apertar um bocadinho, que as forças da ordem que tal e que sim… ele não nos fará falta uma pide virótica? Que devemos fazer a máxima confiança nas autoridades científicas, que devemos acatar as ordens do agente inflexível, juiz de rua que não vai na treta de que saibamos contar dois passos pela rosa-dos-ventos, nem de que sejamos cultos, a ponto de não nos engancharmos com espirros com quem nos passa por perto. Que não estamos em maré de nos pormos a pensar, cada qual por sua cabeça…

Que eu me faça entender, mas não parece que haja muito quem saiba o que está a dizer. Que sentido faz imporem-nos uma restrição ou ameaçarem-nos com probabilidades de infecção inferiores a acertar em combinação milionária? Se por tudo e por nada podemos abafar – ou melhor, se por nada de nada, de um nada cada vez menor –, de que adianta darmo-nos por vivos? Alguém tem dúvidas de que, depois desta, outra vem? Alguém tem dúvidas de que o vírus não tenciona dar à soleta, a coberto de sair para tabaco?

Encafuado, a subir pelas paredes, porque não posso eu enfiar-me no carrito, dar uma saltada à praia, onde bem possa correr, com mais de uma vintena de metros para outro, de quem não me aproximo, com quem não confraternizo? Quem me nega que o marulhar das ondas me seja calmante para uma semana? Quem me impõe que à química eu recorra, para aplacar angústias de português, que bem silencio entre Fão e Apúlia? Quem me pede desculpas, por violências que vírus não me inflige, senão por intermédio de ditadores de gulag doméstico? Por que absurdo me constrangem a não fazer algo, observando regras básicas de segurança, que acabarão por ter de me permitir amanhã, quanto o vírus ainda por cá andar, mas já um governito de rabo entre as pernas, de cofres secos, não tenha como pagar a inspectores do passeio público?
Não haver quem diga que isto vai lá de novenas ao são sebastiãozinho!

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