Correio do Minho

Braga, quinta-feira

É hora de uivar!

Um convite da Comissão Europeia para quem gosta de línguas

Ideias Políticas

2013-02-24 às 06h00

Carlos Pires

1. “É hora de uivar, porque se nos deixamos levar pelos poderes que nos governam, e não fizermos nada por os contestar, pode-se dizer que merecemos o que temos” - a frase tem um autor, português: José Saramago, laureado em 1998 com um Prémio Nobel da Literatura.
Vem esta referência a propósito do acontecimento político e social que dominou a semana que findou: uma onda de protestos dirigidos a governantes ao som de “Grândola Vila Morena”, a carismática canção de Zeca Afonso, organizados através do mais viral (e incontrolável) dos meios, a internet. Os motivos são sobejamente conhecidos: o descontentamento em que o país vive - fruto das dificuldades financeiras, do desemprego, da falta de rendimento disponível -, aliado a um forte sentimento de injustiça e de impunidade.
A este propósito, passo a reproduzir um cartaz que vi amplamente veiculado nas redes sociais: nele constam dois rostos, de perfil - o de uma senhora idosa e o de Ricardo Salgado, Presidente do Banco Espírito Santo. À frente do rosto da idosa escreve-se: “Despejada aos 79 anos; esqueceu-se de declarar a reforma à Câmara Municipal do Porto”. Por seu turno, ao lado do rosto de Ricardo Salgado, refere-se: “Perdoado aos 69 anos; esqueceu-se de declarar 26 milhões ao Fisco”. A mensagem é elucidativa da enorme tensão em que está mergulhada a sociedade portuguesa, a braços com assimetrias de tratamento, injustiças, enfim: por um (provocador) desprezo pelos mais elementares princípios democráticos.
Não fora o fato de grande parte das pessoas já ter “o estômago colado às costas” e certamente o povo - o tal que insistem em conotar como de “brandos costumes” - não sairia para as ruas. Não compreendo pois a discordância de alguns governantes perante o coro de indignação já conhecido como a “Grândolada”: uma manifestação que não se caracteriza pelo arremesso de pedras, mas antes se traduz no canto, em grupo, de uma música. E não se diga que é limitadora da liberdade ou de interesses de terceiros, porquanto esse argumento, interesseiro e demagógico, atenta contra o superior direito de cidadania e de participação (que não pode ser limitado ao direito de voto e nos tempos em que este pode ser exercido).

2. Na 2ª-feira passada o ministro Miguel Relvas foi interrompido quando discursava no Clube dos Pensadores, no Porto, por pessoas que cantaram 'Grândola Vila Morena' e exigiram a sua demissão. 'Sim, vamos todos cantar', disse Miguel Relvas, mas a situação tornou-se patética porque o ministro demonstrou não saber a letra da música que tentou trautear. No dia seguinte, novo episódio ocorreu, no ISCTE: estudantes com cartazes e palavras de ordem obrigaram-no a abandonar a sala onde decorria uma Conferência, de forma atribulada.
Em primeiro lugar, pergunto, como é que ainda há quem convide a mais desacreditada figura do Governo para orar sobre um qualquer assunto, seja ele o futuro do país ou do jornalismo? Logo ele, o Relvas, sem jeito para nada - sequer para cantar -, um “boy” do partido, titular de uma duvidosa licenciatura, suspeito de ingerência nos conteúdos da informação pública e de facilitador de negócios … Será pelo simples fato de ser ministro de um Governo eleito pelo Povo? Se assim é, senhores (des)organizadores dos eventos em causa, não vos reconheço pois o direito de censurarem os manifestantes!
Ainda, o ministro Relvas - que afirmou não se sentir desencorajado pelas manifestações e que o Governo apenas em 2015 poderá ser julgado - não percebe, melhor, finge que não percebe o que está verdadeiramente em causa: as pessoas estão fartas de políticos aos quais não reconhecem um mínimo de credibilidade e conteúdo, fato esse perante o qual terá que ceder toda a legitimidade formal dos cargos. Se Miguel Relvas tivesse um pingo de vergonha, dignidade ou de respeito, por si ou pela função, demitir-se-ia. Mas não! Mostra-se capaz de engolir todos os sapos (até elefantes!), agarrado ao “poder” (ou será a Passos Coelho?) como uma lapa, estranhamente certo de que não será lançado “borda fora” de um barco que já conta com relevantes rombos e que arrisca afundar.
Senhor Primeiro Ministro: algumas das políticas do seu Governo até poderiam ser compreendidas, com consequente consenso da sociedade civil. Mas não é com a total inabilidade que revela na comunicação com os portugueses que obtém esse desiderato. E, por sua vez, essa comunicação não fluirá enquanto “fizer orelhas moucas” daquilo que os portugueses repetida e fundadamente reivindicam - desde logo, a saída de Relvas do Governo. Esse insofismável mistério, acredite, que ameaça transformar-se na sua própria guilhotina.
“Grândola Vila Morena” é uma canção de Zeca Afonso que há quase 40 anos se tornou um hino de libertação em Portugal. Recorda o sonho! Grândola Vila Morena, Terra da Fraternidade…O resto, o resto só o sabe e só o sente aquele que aspira por uma sociedade justa e solidária.

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