Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

E depois de abril, as flores de maio

Braval abrange 15% das ações nacionais da Semana Europeia da Prevenção de Resíduos

E depois de abril, as flores de maio

Voz aos Escritores

2020-05-15 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

[…]“Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim” […]
[…] Tu vieste em flor, eu te desfolhei"[…]
José Niza



"E Depois do Adeus", interpretada por Paulo de Carvalho, foi a canção utilizada como uma das senhas da revolução que, em abril de 74, devolveu a democracia a Portugal.
Não tendo conteúdo político explicito, pois é uma típica canção de amor dos anos 70 que fala sobre um homem que se encontra perdido depois do fim de uma intensa relação amorosa, esta não levantaria suspeitas. No entanto, a letra desta canção tem um atrevimento, para a época, num dos seus versos "Tu vieste em flor, eu te desfolhei", que nos remete para a simbologia das flores no amor e na fertilidade. Simbologia esta tão marcante na luta pela liberdade e em gestos de solidariedade. A este propósito, lembramos que após o início da 1.ª Grande Guerra surgiram várias associações cívicas que procuraram angariar fundos com destino aos nossos soldados ou às suas famílias, algumas das quais, sem eles, ficaram muito fragilizadas. Uma dessas iniciativas foi "A Venda da Flor", levada a cabo por de um grupo de mulheres, Cruzada das Mulheres Portuguesas, que, em troca de uma flor colocada ao peito de cada homem que encontravam, recebiam um donativo em dinheiro. Foi também pelas mãos de uma mulher, Celeste Martins Caeiro, que os soldados no 25 de abril receberam uma flor, um cravo na lapela, que viria a dar, por sua vez, o nome à Revolução dos Cravos.
Atrevemo-nos a dizer que entre as flores e a mulher há uma certa analogia íntima de graça, de harmonia, quase de função moral na vida. Não é sem razão que, desde todos os tempos, os poetas cantam nas flores as mulheres e nas mulheres as flores. Em “Cravos Vermelhos”, Florbela Espanca canta:
Sois volúpias em flor! Ó gargalhadas
Doidas de luz, ó almas feitas risos!
Donde vem essa cor, ó desvairadas,
Lindas flores d’esculturais sorrisos?!

E como na própria irradiação do perfume das flores, o amor, essência feminina, encontra o seu mais poético e doce símbolo!
Assim, a festa das flores é, portanto, em toda a parte, a festa da mulher, como canta tão bem José Gomes Ferreira:
Com pés de aragem
andou toda a noite uma Mulher
a colar folhas na paisagem
e invenções de flores
no chão desnudo
Depois...
(E esta mania que eu tenho
de pôr mulheres em tudo?)

Também Alberto Caeiro personifica as flores, realçando a verdade dos seus sorrisos em oposição à falsidade da humanidade:

Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.( Alberto Caeiro)

Para Charlie Chapin, o homem que tanto me fez rir, a palavra permite a mentira, mas o corpo não pode mentir, o gesto não atraiçoa as metamorfoses da alma, a boa verdade. Assim nos canta Luisa Sobral:

A rosa não quer ser mais rosa
Vestiu- se de malmequer
Porque uma rosa sem amor
Não tem perfume de flor
E morre ao nascer.
Voltando ao poema de José Niza, podemos inferir nele essa flor dos amantes, a rosa-mulher, que recende agradavelmente de amor. Amor esse que não nos deixa ficar sós. Ou talvez nos crie a ilusão que não nos sentimos sós. A este propósito, escrevi “Singularidades de uma rosa”:

Serena, transpira intensidade
e, no fulgor da virgindade, faz amor
com o verbo, seu servo,
transbordando o verso.
Bebe a alma inteira
doce verde-mar dos trémulos arbustos
que febris da intolerância de um herói gigante, sem escrúpulos,
se vão libertando em frenéticos ais.

Pois bem, é para essa libertação que as flores de maio, flores de giesta, “as maias”, nos exortam. Maio simboliza, assim, o triunfo da natureza fecunda sobre o longo inverno que, neste corrente ano, se havia de tornar no tal “mostrengo” de que nos fala Fernando Pessoa. E é no mês das flores de giesta que, de novo, a mulher volta a ter grande relevo. Para a mulher, maio ficou marcado pela inquietação de 68 — mês onde era preciso proibir de proibir.
Em Portugal, as três Marias têm o nome de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, três das muitas mulheres que se dedicaram à causa feminista que só abril havia de consagrar. Quem não se lembra da manifestação da Queima de Soutiens no Parque Eduardo VII? Lá estiveram as Três Marias onde foram, a título simbólico, queimados soutiens, em frente a insultos de mais de três mil homens presentes, segundo a imprensa da época. Que alegoria de mudança teve esta singela queima! Que forma inteligente para mostrar como a opressão, a insegurança, o medo e a falta de coragem, podem ser queimadas, realçando que podemos sempre fazer melhor do que imaginamos, sejamos nós mulheres ou homens!
Ao longe, ouço um grito com o qual me identifico. É o grito de uma dessas Mulheres, Maria Teresa Horta. É com esse grito que hoje beijo todas as flores de maio:
Ninguém me aquieta a escrita
na criação de si mesma
nem assassina a musa
que dentro de mim se inventa.

Deixa o teu comentário

Últimas Voz aos Escritores

20 Novembro 2020

Perguntas e respostas

13 Novembro 2020

Paris não foi uma festa

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho