Correio do Minho

Braga,

- +

E de repente, um outro Abril…

O problema do vira-lata!

Ideias

2011-04-14 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Em vinte e cinco anos de Europa aprendemos muito, mas pelos vistos não o essencial para sabermos como nos governar melhor. Mudámos muito, é certo, sobretudo nos hábitos de consumo, na qualidade dos serviços, na educação das nossas gentes. Já não somos o país dos 15% de analfabetos que se registavam ainda em 1985; nem do parque automóvel com médias de idade que hoje nos fariam gargalhar.

Mas dentro de nós, sempre soubemos que algo não ia bem - que um país fortemente apostado em serviços, com pouca indústria, e que assiste à morte lenta da agricultura como uma espécie de inevitabilidade de quem ascende ao estatuto de povo civilizado, não teria muito a que se agarrar ante os ventos cíclicos das retracções económicas. Mas os tempos eram da retórica neo-liberal: para quê fazer cá o que se pode comprar barato lá fora? ‘O que é nacional é bom’ era slogan para totós que não entendiam os benefícios de uma economia global. Como António Gramsci teria gostado de analisar esta doce e ordeira elevação de ideias à condição de património do nosso senso comum.

Eram os tempos felizes da Expo-98. Do rasgar de auto-estradas - com uns viadutos pelo meio que às vezes iam dar… a lugar nenhum, e que reportagens da TV nos mostravam com a mesma descontracção de quem encontra erros gramaticais na língua portuguesa. Do erguer de teatros municipais - mesmo que a seguir não houvesse dinheiro ou vontade política para organizar programas culturais decentes que os enchessem de vida e de propósito. Dos estádios de futebol - de todas as cores e feitios, de sustentabilidade económica duvidosa, mas feitos de raiz para alegria dos consórcios de construção.

Ah! Esses gloriosos tempos em que se podia passar o horário de expediente a pôr e a tirar agrafos, sair às 5 horas da tarde para fazer mais meio-dia de trabalho por contra própria, ou simplesmente ir ver montras, ao mesmo tempo que se dava cabo das estatísticas da produtividade para as quais outros tantos portugueses já andavam afinal a contribuir com um estúpido excesso de horas de trabalho. E no fundo, já sabíamos que algo não ia bem - que um país que está continuamente na cauda dos índices de produtividade, não tem como afirmar-se num mundo altamente competitivo.

Mas como pensar seriamente nestas questões se o sol brilhava e o crédito pessoal até permitia senti-lo sob o céu azul de Varadero ou das Seicheles? Estado e Banca faziam uma dupla imparável de convites ao festim. O primeiro com os seus perdões as devaneios das câmaras municipais, dos institutos, das fundações, dos clubes de futebol. A segunda, com o seu investimento em publicidade apelando à nossa ânsia (legítima, diga-se!) de sermos finalmente felizes como os mais felizes dos povos desenvolvidos. “Caramba! Porque não?” Pensávamos.

E os bancos lá estavam, de portas abertas, cada um com o seu pregão como empregados de restaurante em zonas turísticas a assediar-nos com menus de água na boca! Patrão e empregado iam ao Brasil. Mas com uma diferença tremenda: o primeiro preferia mimar a família com mais umas férias, a dar bónus aos trabalhadores mais esforçados da firma, ou a investir na actualização do seu produto, a torná-lo mais diferenciado, mais competitivo. O segundo, se não tinha um pé-de-meia à medida do sonho, o mais certo era ter feito um crédito que só lhe iria doer a valer tempos depois.

Eram enfim os tempos fantásticos em que, se não parecíamos progredir em estatísticas fundamentais, parecíamos ao menos impressionar muito bem em outras, como nas taxas de conclusão da escolaridade obrigatória, ou nas percentagens de diplomados. E no fundo, já sabíamos que algo não ia bem - que se alguém entra num curso superior a escrever “o estado trou-se muita coisa” não há estatística que justifique a humilhação que é afinal mútua: do professor e do aluno. Mas a vida lá continuava, até porque para as elites sempre haverá os colégios privados onde se pode aprender bem e depressa como ser-se competitivo, mesmo que pelo caminho se perca alguma verticalidade humanista.

O dinheiro tem por vezes esta capacidade de escorar o homem eticamente erodido. E sempre haverá as universidades estrangeiras para onde podem ir tantos as mentes brilhantes como as imbecis. O dinheiro também tem por vezes esta inesperada capacidade niveladora… A vida lá continuava portanto, com os jovens satisfeitos perante médias de dez valores, como se fosse extraordinário conseguir estar ligeiramente acima do nada. E no fundo já sabíamos que algo não ia bem - que um país que faz a apologia da mediocridade e que ainda assim espera que os filhos consigam bons empregos, anda com certeza a enganar-se e por gerações! E sabíamos também que um país que não consegue erradicar os seus dois milhões de pobres e quase-pobres; cujo salário mínimo regista as evoluções mais modestas no conjunto dos países europeus com este sistema; e cujo salário médio não passa aqui dos 900 euros, está longe de poder enfiar na gaveta das relíquias sociológicas conceitos como o de desigualdade social.

Mas a vida lá continuava e se alguma coisa falhasse, tínhamos sempre o consolo da maior árvore de Natal da Europa! Ninguém bate o nosso jeito para quebrar recordes do Guiness!
Até que, de repente, chega-nos um outro Abril.

A vinda do FMI responde a uma complexa agenda de interesses internacionais que se borrifa por completo para a injustiça da nossa queda. Somos meros danos colaterais. Já o percebemos. Mas a verdade é que este murro só dói como dói porque ao longo destas duas décadas de União Europeia e quatro de Democracia, não quisemos aprender a sermos mais fortes para não termos de ser humilhados. E agora lá vamos nós ter de mostrar outra vez que somos ‘bons alunos’ dos outros.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

24 Fevereiro 2020

“zonamento” (parte II)

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.